A formação do músico católico é fundamental e a pedra principal é sua obediência e concordância litúrgica.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ESTUDOS DA CNBB 79, A MÚSICA LITÚRGICA NO BRASIL - ORIENTAÇÕES PASTORAIS (PARTE IV/V)

3. ORIENTAÇÕES PASTORAIS

3.1. O CANTO DA ASSEMBLÉIA

3.1.1. Os participantes nas nossas assembléias

157. Antes de mais nada, em nossas celebrações, devemos levar em consideração as pessoas. A liturgia, afinal, é o lugar por excelência do encontro das pessoas humanas entre si, e das pessoas humanas com as Pessoas Divinas.

158. Quem são mesmo as pessoas que frequentam nossas igrejas e participam de nossas assembléias ou celebrações, no campo ou nas cidades?
  • São crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos;
  • São homens e mulheres, estas quase sempre em número maior;
  • Gente da capital ou do interior, do centro ou da  periferia;
  • Gente da Amazônia ou dos Pampas, do Centro-Oeste, do Nordeste, do Leste ou do Sudeste;
  • Gente dos sertões ou do litoral;
  • Gente de classe média, gente abastecida, gente carente, classes altas e populares, gente erudita e gente analfabeta;
  • Rostos de índios ou de africanos, rostos de europeus ou de asiáticos, mestiços que tanto têm de índio quanto de branco, mas, sobretudo, muito têm de negro, mesmo sem se dar conta disso ou valorizá-lo.
159. Povo, na sua maioria, pobre, sem terra, sem emprego, sem estudo, assalariados ou autônomos de baixo poder aquisitivo, que carrega sobre seu dorso a pesada cruz da opressão e sofre as consequências de algum tipo de exclusão; gente para quem o Filho de Deus continua olhando com profunda compaixão, porque são como ovelhas sem pastor (Mt 6,34); gente que muitas vezes poderia fazer a pergunta do Salmo 137(136): Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?...

160. Sobre esse povo, o Apóstolo Paulo escrevia: ...vocês que receberam o chamado de Deus, vejam bem quem são vocês: entre vocês não há muitos intelectuais, nem muitos poderosos, nem muitos de alta sociedade. Mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante. Desse modo, nenhuma criatura pode se orgulhar na presença de Deus. Ora, é por iniciativa de Deus que vocês existem em Jesus Cristo, o qual se tornou para nós sabedoria que vem de Deus, justiça, santificação e libertação, a fim de que, como diz a Escritura: “Aquele que se gloria, que se glorie no Senhor” (1Cor 1,26-31).

161. Por esse povo simples, Jesus continua bendizendo o Pai, por lhe revelar os seus segredos... convidando-o: Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu peso é leve (Mt 11,25.28-30). E a celebração é, com certeza, para eles e elas, um momento muito especial de experimentar “como o Senhor é bom” (Sl 34(33),9). O canto, a música, então, quanto têm a ver com essa experiência. Os benditos e toda folcmúsica religiosa não terão brotado de uma tal experiência de Deus, e não poderiam ser uma referência, um indicativo, para letristas e músicos? Aliás, nossa experiência cultural está aí a demonstrar com um sem-número de exemplos quanto o canto, a música, a dança, a festa, enfim, fazem parte do dia-a-dia dos pobres, do seu jeito alegre de crer, de esperar e resistir, apesar dos pesares e contratempos, na certeza de que amanhã vai ser outro dia! É como se a Terra Prometida tardasse a chegar e, enquanto isso, a gente não perdesse tempo. Vai ensaiando e concretizando, nem que seja provisoriamente, por entre cantos e danças, aquela realidade que um dia será definitiva, mas já vem chegando.

162. Esse povo por Jesus considerado “feliz”, porque, sem posses, ou mesmo abastado, tem “fome e sede de justiça” (Mt 5,6) e, consciente da “razão da sua esperança” (1Pd 3,15), faz da sua comunhão na fé um compromisso efetivo de solidariedade e de luta para que os espoliados e excluídos “tenham vida, e vida abundante” (Jo 10,10); povo que lembra o encontro daquelas duas mulheres cheias do Espírito e profundamente solidárias, vibrando na fé do Deus vivo, que, através da fragilidade delas, manifesta o seu poder em favor de todo o povo e faz brotar um canto novo, o canto da Igreja por excelência, referência primeira de todo autor ou compositor, o Cântico de Maria (Lc 1,39-55).

163. Mas não se pode esquecer que, no meio desse povo, há também muita gente que vive a sua religião num total alheamento às situações vividas por seus semelhantes, indiferente ao sofrimento da humanidade, descomprometida com qualquer iniciativa no sentido de livrar seu povo das opressões e construir um projeto de sociedade, onde todos caibam e ninguém fique excluído; gente alienada, incapaz de escutar os clamores do seu povo e os apelos do seu Deus. A respeito desta gente, Jesus recordava, certa feita, as palavras do Profeta Isaías: Este povo se aproxima de mim só com palavras, e somente com os lábios me glorifica, enquanto o seu coração está longe de mim. O culto que prestam é tradição humana e rotina (Is 29,13; Mt 15,18).

164.
  • Como autor ou compositor, como agente litúrgico-musical, qual a sua comunidade de referência?
  • Quais as suas raízes poético-musicais, suas fontes de inspiração?
  • Para quem você escreve, compõe ou exerce algum outro ministério musical?
  • A quem e para que está servindo o seu canto, a sua música?
  • Você já havia percebido a importância do Cântico de Maria e se espelhado nele?
3.1.2. A primazia da assémbleia

165. Aos recém-batizados das comunidades primitivas, o Apóstolo Pedro escrevia: vocês também, como pedras vivas, vão entrando na construção do templo espiritual, e formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo... Vocês são raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa (1Pd 2,5.9).

166. Para o Apóstolo, a liturgia dos cristãos era antes de tudo um culto existencial, uma vida vivida como adoração em espírito e em verdade (Jo 4,23-24; Rm 12,1-2). Ora, dessa vida vivida a todo o momento como oferta e louvor é que brotava a celebração autêntica e verdadeira:

167. Uma assembléia de pobres ou de gente solidária com sua causa, todos convocados pelo Pai para as bodas do seu Filho e, portanto, devidamente trajados com a veste nupcial, que outra não parece ser senão aquela abertura sincera de coração para o Pai e para os irmãos e irmãs (Mt 22,1-14); gente reconciliada, que vai poder dignamente participar do banquete, dasmúsicas e danças, da festa, enfim (Lc 15,11-12);

168. Reunidos, em nome de Jesus, os fiéis gozam da certeza maior de sua presença (Mt 18,20) e dele recebem o mandato de repetir seus gestos e palavras em sua memória (1Cor 11,23-25), dando graças ao Pai, de quem procede qualquer dom precioso e qualquer dádiva perfeita (Tg 1,17);

169. Esta assembléia sacerdotal, manifestação privilegiada do Corpo de Cristo (Rm 12,3-13; 1Cor 12,12-13), deve ser a referência mais importante dos autores, compositores e demais agentes litúrgico-musicais.

170. Foram essas convicções elementares que levaram a renovação da música litúrgica católica a compreender o primado da assembléia e a insistir nele!

171. Servir à assembléia é a base de toda liturgia verdadeiramente pastoral. Servir não quer dizer que se satisfaçam todos os desejos manifestados na comunidade. Trata-se de introduzi-la sempre mais, pela fé, nos mistérios de Jesus Cristo. Mas como fazê-lo sem conhecer a comunidade, sem levá-la em conta assim como ela é, para que ela, toda ela, se ponha em marcha?

172. Levar em consideração a assembléia celebrante, com suas possibilidades, sua riqueza e seus limites, é a primeira preocupação de uma liturgia verdadeiramente pastoral. É o caminho mais seguro para se chegar a uma celebração cheia de vida, significativa e personalizada, sobretudo quando se trata de música e canto.


173. E este primado da assembléia se torna, assim, um princípio fecundo e rico de múltiplas consequências ou implicações para a música na liturgia.

3.1.3. Servir à assembléia, não a indivíduos ou tendências

174. A assembléia litúrgica não é apenas a soma dos indivíduos que a compõem. Ela é a Igreja inteira, manifestando-se naqueles que estão reunidos aqui e agora. Aí está o Cristo presente e agindo. Claro que se trata de pessoas, mas em comunhão, e não uma ao lado da outra. O que se quer é servir a essa comunhão entre as pessoas. E essa compreensão mística determina a prática do agente litúrgico-musical.

175. Não tem sentido, por exemplo, escolher os cantos de uma celebração em função de alguns que se apegam a um repertório tradicional, ou ainda de outros que cantam somente as músicas próprias de seu grupo ou movimento, nem de outros que querem cantar exclusivamente cantos ligados à realidade sociopolítica, se isto vai provocar rejeição da parte da assembléia. Pois todos têm o direito de compreender e participar com gosto, sobretudo os mais desprovidos. É preciso que se pense em todos, e em cada um na comunhão com os demais.

176. Não é algo fácil conhecer as necessidades verdadeiras, as capacidades reais e os gostos especiais de uma assembléia. O pior que pode acontecer é achar que tudo se resolve entre quem preside e o regente ou animador do canto. E o melhor será uma prática comunitária e democrática, em que as pessoas recebem as informações e a formação necessárias em matéria de liturgia e música, trocam seus pontos de vista e com critérios e bom senso fazem seu discernimento, avaliam permanentemente sua prática e vão encontrando a feição musical e litúrgica da assembléia. E é bom estar atento para o fato de que nem sempre o que se pensa e o que se diz coincide com o que se sente e se vive. Nossa escuta tem de ser mais profunda do que simplesmente perguntar às pessoas o que elas acham, sobretudo porque há toda uma massa de silenciosos.

3.1.4. Integrar a todos

177. Celebrar com uma assembléia homogênea não é algo que acontece sempre, nem parece ser o mais significativo. É bem mais fácil escolher cantos, música ou coreografia com ou para uma comunidade monástica, um grupo de jovens, um encontro da Pastoral Operária ou um retiro de catequistas... Mas não é esse tipo de celebração o que melhor revela a feição católica,isto é, universal, da Igreja, onde ninguém é mais do que ninguém, onde todos cabem e são acolhidos com suas diferenças, seus valores e seus dons, para formar o único Corpo de Cristo.

178. Normalmente, nossas assembléias litúrgicas são heterogêneas, misturadas. Aí estão, não apenas indivíduos diferentes, mas segmentos ou grupos diferentes de pessoas, que têm algo de comum entre si e formam minorias específicas dentro da grande assembléia:
  • numa assembléia em ambiente urbano de centro: gente de classe média, gente da periferia, gente de etnia, cultura, idade e sexo diferentes.
  • numa Comunidade de Base da periferia urbana ou de meio rural: crianças da catequese, adolescentes que se preparam para a Confirmação, grupos diversos (de jovens, de casais, da pastoral dos enfermos, de idosos etc.).
179. Sob o pretexto de não fazer acepção de pessoas, não se pode ignorar essas diferenças de ordem sociopsicológica. Optar por uma neutralidade indiferente a tudo isso, com o propósito de atender a todos por igual, é correr o risco de não atingir a ninguém. Pelo contrário, seria melhor empenhar-se em ir ao encontro de cada situação, tornando-se servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (1Cor 9,19).

Imaginemos uma assembléia de adultosna qual há uma presença importante de adolescentesa quem os cantos litúrgicos do gosto de seus pais parecem “cafonas” e enfadonhos. Sem privar os mais velhos de seus cantos tradicionais, por que não introduzir, em momentos estratégicos da celebração, cantos litúrgicos de outro estilo, com os quais os mais jovens se identifiquem e através dos quais se expressem mais a gosto? Em momentos assim, eles vão entrar de cheio e toda a celebração, de repente, vai tomar outro aspecto para eles e, quem sabe, o clima geral vai mudar para todos.

Imaginemos uma igreja frequentada pela classe média, frequentada também por gente de um bairro pobre vizinho, mas onde comparece um grupo de pessoas de cultura erudita em matéria de música. Seria oportuno incluir na celebração, sem prejuízo do canto da assembléia, algum momento especial, em que um coral, um órgão ou outros instrumentos poderão proporcionar um instante de poesia e contemplação, e uma oportunidade de enlevo espiritual para todos os demais.

Imaginemos ainda uma comunidade eclesial de base na periferia da cidade, ou mesmo em alguma igreja de centro, onde sempre costuma haver uma presença significativa de negrosou mestiçosseria bom inserir em toda celebração alguns cantos, alguma música, alguma coreografia do recente, mas já rico e significativo repertório afro-brasileiro.

180. Ao garantir que as riquezas de cada um, de cada grupo ou minoria, sejam postas a serviço de todos, leva-se a sério a assembléia concreta e real. Todo o mundo vai se sentir levado em conta, pelo menos num ou noutro momento com o qual se identifica mais. Cada um vai se acostumando a reconhecer na assembléia a presença dos demais, a respeitar as diferenças e prestigiar os valores de cada grupo ou expressão cultural.

3.1.5. Contar com os agentes disponíveis

181. Uma assembléia litúrgica supõe necessariamente tarefas e papéis formais, a ser desempenhados por agentes previstos de antemão e preparados devidamente para tais papéis ou tarefas. Deles é que vai depender o desenrolar harmonioso da celebração. E isso é particularmente evidente quando se trata de canto, música, dança ou coreografia. É do animador do canto, do coral, dos instrumentistas, do grupo de dança, da capacidade vocal e musical dos que presidem ou coordenam a celebração, que depende todo o desempenho musical de uma assembléia. Há de se levar em conta as possibilidades concretas de cada assembléia, de cada comunidade e seus agentes ou ministros.

3.1.6. Ter em vista a experiência de fé

182. A função própria do rito é ser sinal da fé. A celebração cristã da vida é essencialmente uma celebração da fé. Para que um rito cantado funcione como tal, não basta que a obra seja executável, que todo o mundo cante, que a música seja bonita. É preciso, sobretudo, que o canto, a música, propicie uma experiência de Jesus Cristo, presente e atuante no meio dos seus, que sua Palavra seja anunciada e acolhida, que se realize uma comunhão no seu Espírito.

183. A questão principal e decisiva será sempre: que significa para esta assembléia o fato de cantar tal canto, e de cantá-lo desta maneira? Questão particularmente difícil de ser respondida, cuja resposta sempre nos escapará em parte. Mas de todo imprescindível, pois dela depende o sentido mesmo do que fazemos, ao nos reunir em assembléia para celebrar nossa vida à luz da fé. Não basta contentar-se com uma bela cerimônia, com haver executado belas músicas, com haver realizado um encontro agradável. Trata-se mais de haver acolhido em profundidade a Palavra que liberta e transforma, que faz morrer e reviver, que nos abre para o Outro e para os outros, segundo o espírito das Bem-aventuranças!

184. Tocar, cantar e dançar muita ou pouca música... escolher entre este ou aquele repertório... não vale igualmente para todo tipo de assembléia. O critério decisivo não será jamais a própria música, mas a assembléia que se reúne para cantar, tocar e dançar, ao celebrar sua fé.

3.1.7. O canto litúrgico enraizado na assembléia

185. Nada mais sem graça e enfadonho do que uma celebração-robô, um “enlatado” litúrgico sem o rosto da comunidade que celebra, sem raiz nos acontecimentos que marcam a sua vida, sem atualidade, fora do tempo e do espaço. Ao pretender agradar a todos, termina sendo de ninguém. Pelo contrário, onde se tem experiência de uma celebração significativa e interessante há sempre por trás uma equipe de celebração capaz de encontrar, com a assembléia por ela animada, o seu próprio estilo. Mas, para chegar a esse ponto, não basta a personalidade de quem preside, a qualidade do coral, a competência dos instrumentistas, a riqueza de um repertório ou a escolha acertada dos cantos. É preciso que haja certa coerência entre as pessoas e as ações; um ajustamento perceptível entre a arquitetura e o jeito de celebrar, entre as mensagens e a música, entre a cultura e a fé dos participantes. É preciso, sobretudo, profunda harmonia entre aquele que preside, os demais ministros, o(a) regente ou animador(a) do canto, o coral, os instrumentistas e o povo.

186. É justamente por isso que as assembléias que se exprimem com cantos criados dentro delas e para elas — para tal público, tais intérpretes, tais instrumentos, tal espaço, tal arrumação — parecem muito mais autênticas e cheias de vida. E não é por nada que, das composições recentes, as melhores são quase sempre as que surgem de uma assembléia particular ou de uma circunstância especial. Elas se enraízam num tempo ou num espaço determinados... elas têm húmus. A tradição do “cantor”, que compõe para as celebrações de sua comunidade, é sem dúvida a hipótese mais interessante. Da mesma forma, o instrumentista capaz de improvisar em certos momentos de determinada celebração... ou o salmista, encontrando em determinada circunstância o jeito melhor de salmodiar ou “cantilar”.

187. Se essa for, então, a nossa compreensão do afazer litúrgico, consequentemente teremos de admitir como positiva e desejável a mais ampla e rica diversidade em matéria de desempenho musical de nossas assembléias. É necessário e suficiente garantir os elementos essenciais da celebração cristã e alguns cantos comuns, especialmente no âmbito de uma mesma região cultural, de modo que permita que os que aí chegam de passagem consigam se situar na celebração local. Nada a temer, nada a perder, se cada assembléia tem sua personalidade musical, como cada pessoa tem seu rosto, seu semblante, desde que se possa reconhecer, sob traços tão diferentes, o único semblante da Esposa de Cristo, a sua Igreja.

188.
  • O primado da assembléia, com todas essas implicações, questiona sob algum aspecto sua prática como autor, compositor ou agente litúrgico-musical?
  • Ao prestar o seu serviço musical, sua preocupação maior é servir ao conjunto, levando em conta os gostos e o jeito de ser de cada uma das minorias aí presentes?
  • Você utiliza toda a riqueza de seus talentos, tendo bem presente as reais possibilidades da assembléia para quem você compõe ou presta algum outro tipo de serviço litúrgico-musical?
  • Você se preocupa em aprofundar sua experiência de fé, de tal maneira que sua arte e seu serviço musical, ao brotarem de tal experiência, possam alimentar a fé de sua comunidade?
  • Você é dos que se alegram com a variedade da vida, ou parte para uma uniformidade que empobrece e sufoca?
  • Ficou clara para você a resposta à pergunta: “Quem canta, toca e dança na celebração litúrgica?
3.2. A NATUREZA SACRAMENTAL DA MÚSICA LITÚRGICA

3.2.1. Música ritual

189. Nossas celebrações são acontecimentos simbólicos.Não são, em primeiro lugar, momentos de doutrinação e aprendizado, de debate ou deliberação, de avaliação ou planejamento, nem mesmo de meditação ou oração individuais. Um pouco disso tudo pode até haver, mas o que se busca no momento celebrativo é transcender o cotidiano e ir além do superficial, atingir em profundidade o âmago da existência, o mistério de tudo quanto se vê e se toca. É encontrar-se com os outros num clima de poesia e intuição, num instante de profunda comunhão e transcendência, que permite a todos entrar em sintonia com o grande Outro.

190. Nossas celebrações são memorial e mistério. Recordando, em palavras e gestos, os fatos salvíficos do passado, a assembléia celebrante goza da certeza de que o Deus de ontem, o Deus de hoje e de sempre aí está presente. Ele continua realizando as mesmas maravilhas na caminhada do povo e garantindo-lhe um futuro de plenitude.

A celebração é o ponto de encontro com o Senhor Ressuscitado. Aí o povo de Deus se renova na certeza de que Ele está presente todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,20).

191. A música, a mais espiritual de todas as artes, tem tudo a ver com essa experiência. Que coisa, mais que o canto em uníssono, o canto harmonioso, ora suave, ora forte, acompanhado dos toques e sons sugestivos de instrumentos e realçado pela força comunicativa da dança, poderá nos transportar a esses mundos recônditos e nos fazer experimentar juntos o invisível, o inefável, levando os corações a vibrar juntos por aquelas “razões que a própria razão desconhece”?

192. Sem dúvida alguma, é sobretudo este canto vibrante da assembléia cristã que nos faz provar mais saborosamente como o Senhor é bom (Sl 34,9), sentir e curtir a presença do Ressuscitado, experimentar a consolação e a força renovadora do seu Espírito. Mas é importante observar com alguém que melhor entendeu disso tudo que na celebração do culto da Igreja, a proposta não é de “fazer música”, mas de entrar, por meio da arte musical, no mistério da salvação.

193. Há 16 séculos, S. Agostinho, ao definir o canto litúrgico como “profissão sonora da fé”, já fala do “canto eclesiástico” como aquele que é apto para cumprir a função litúrgica que dele se espera. Trata-se, portanto, de uma arte essencialmente funcional, vale dizer, trata-se de música ritual.

194. Foi essa compreensão original que o Concílio Vaticano II veio resgatar, quando, ao falar de “Música Sacra”, a definiu como parte integrante da liturgia, e acrescentou que será tanto mais sacra, quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica. Assim compreendida, a Música Litúrgica não pode ser tomada apenas como adorno ou acessório facultativo da celebração cristã da fé. Ela não é coisa que se acrescenta à oração, como algo extrínseco, mas muito mais, como algo que brota das profundezas do espírito de quem reza e louva a Deus.

Mais ainda, a Música Litúrgica participa da natureza sacramental ou mística de toda a liturgia, da qual sempre foi e sempre será parte essencial  e sua expressão mais nobre.

195. Ora, a palavra “Liturgia” por si mesma já significa ação do povo. Eis a comunidade cristã reunida em nome de Jesus, dotada pelo Espírito de toda a sorte de carismas, organizada como um corpo vivo, no qual cada membro tem um serviço a prestar, no seu momento mais expressivo, a Celebração do Mistério da Fé!

196. A música que aí se toca, canta e dança, é ação musical-ritual da comunidade em oração. É música a serviço do louvor ou do clamor desse povo, ao realizar os seus “Memoriais”. É música a serviço do “encontro” das pessoas humanas entre si e com as Pessoas Divinas. Não uma música qualquer. Não simplesmente uma bela música. Nem, apenas, piedosa. Mas uma música funcional, com finalidade e exigências bem delimitadas: um rito determinado, com seu significado específico.

197. Essa compreensão da natureza funcional, da ritualidade da música litúrgica, é que, em cada caso, definirá as escolhas a serem feitas em termos de textos, melodias, ritmos, arranjos, harmonias, estilos de interpretação etc. O importante é que determinada criação musical sirva para a comunidade celebrante desempenhar bem o rito que realiza.

198. Esta funcionalidade da Música Litúrgica, ao delimitá-la com precisão, em nada vem a prejudicar sua qualidade como arte musical, nem bloquear a inspiração do artista litúrgico. Pelo contrário, em cada contexto existencial, cada momento ritual será novo apelo à criatividade e à capacitação litúrgico-musical de quem compõe o texto ou a melodia, de quem escolhe o repertório, anima o canto, toca o instrumento e, com a voz e o corpo, produz o louvor ou o clamor. O rito dá o rumo, e o artista embarca nessa inspiração inicial em busca da beleza a serviço da fé. E quando o artista litúrgico consegue atingir o pleno esplendor da forma musical, a música se torna a alma do rito. E a música ritual, graças à força simbólica e poética que ela imprime ao rito, será capaz de transportar seus atores, toda a assembléia orante, para além dela própria, projetando-a no insondável Mistério de Deus.

199. Tal funcionalidade ritual da música litúrgica vai, finalmente, exigir dos compositores (letristas e/ou músicos), de todos os agentes litúrgico-musicais, na realização da sua arte ou do seu ministério, além da competência técnica e artística, uma consciência e uma sensibilidade que só consegue atingir quem participa efetivamente de uma comunidade cristã, cuja vivência da fé é partilhada num ambiente eclesial.

200. Em se tratando de música litúrgica, sua verdade, seu valor, sua graça, não se medem apenas pela sua capacidade de suscitar a participação ativa, nem por seu valor estético-cultural, nem por seu sucesso popular, mas pelo fato de permitir aos crentes implorar os “Kyrie Eleison” dos oprimidos, cantar os “Aleluia” dos ressuscitados, sustentar os “Maranatha” dos fiéis na esperança do Reino que vem.

3.2.2. Função ministerial da música litúrgica

201. Definida esta exigência essencial da funcionalidade da Música Litúrgica, nada mais natural que dar boas-vindas a qualquer gênero de música, desde que:
  • Esteja intimamente ligada à ação litúrgica a ser realizada, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados;
  • Tenha um texto bíblico ou inspirado na Bíblia, como também uma linguagem poética e simbólica e um caráter orante, permitindo o diálogo entre Deus e seu povo;
  • Tenha melodias própria e jamais se lance mão de melodias que já revestiram outros textos não-litúrgicos;
  • Respeite a sensibilidade religiosa do nosso povo;
  • Empregue, de maneira equilibrada e judiciosa, as constâncias melódicas e rítmicas da folcmúsica religiosa brasileira, evitando qualquer abuso de ritmos que possam empobrecer a música, e até torná-la exótica para nossas assembléias;
  • Seja adequada ao tipo de celebração na qual será executada;
  • Leve em conta o tempo do ano litúrgico;
  • Esteja em sintonia com os textos bíblicos de cada celebração, especialmente com o Evangelho, no que diz respeito ao canto de comunhão;
  • Esteja de acordo com o tipo de gesto ritual;
  • Expresse o mistério vivido de determinada comunidade, vivendo intensamente a luta, a perseguição, o martírio, a pobreza;
  • Expresse-se na linguagem verbal e musical, no “jeito” da cultura do povo local, possibilitando uma participação consciente, ativa e frutuosa dos fiéis na ação litúrgica;
  • Não seja banal, porém, artística, bela e profunda.
202. As mesmas pedras servem para levantar pontes ou muros, edificam templos ou constroem prisões; as mesmas flores adornam túmulos e igrejas. Tudo depende do espírito de quem as utiliza, da funcionalidade que a elas se dá. O importante é que tal tipo de música sirva, aqui e agora, para a comunidade em oração realizar com propriedade e beleza, com prazer e proveito espiritual, determinada ação litúrgica.

3.2.3. A primazia do Canto

203. A Palavra de Deus, acolhida por nossos pais e mães na fé ao longo da sua trabalhosa história e consignada nas páginas da Bíblia, como herança preciosa para as gerações vindouras, é componente elementar e essencial das celebrações da fé. O canto, por natureza, está intimamente vinculado à palavra. O canto é palavra que desabrocha em sonoridade, melodia e ritmo. Tem tudo a ver com a celebração da Palavra de Deus, seja quando os salmos se tornam a expressão do louvor ou do clamor da assembléia, seja quando as Escrituras são proclamadas para edificação do Povo de Deus.

204. O canto será, assim, a expressão mais suave ou mais forte da Palavra. Por essa vinculação de raiz com a Palavra, no culto cristão, o canto é a expressão musical mais importante. Parafraseando o evangelista místico, poder-se-ia entender o momento celebrativo da assembléia cristã como aquele em que o Verbo se fez canto e vibrou entre nós (cf. Jo 1,14).

3.2.4. A música instrumental também tem vez

205. A linguagem musical dos instrumentos tem seu lugar e importância na celebração da fé, não somente enquanto acompanha, sustenta e dá realce ao canto, que é sua função principal, mas também por si mesma, ao proporcionar ricos momentos de prazerosa quietude e profunda interiorização ao longo das celebrações, proporcionando-lhes assim maior densidade espiritual. Instrumentos de todo o tipo estão sendo convocados a prestar esse serviço, contanto que se leve em conta o gênio e as tradições musicais de cada cultura, a especificidade de cada ação litúrgica e a edificação da comunidade orante.

3.2.5. E por que não a dança?

206. Em matéria de música ritual, ao canto e ao toque dos instrumentos se acrescenta naturalmente a expressão corporal, que atinge sua plenitude na dança litúrgica. 

207. Nosso corpo, sensível e dócil ao movimento, é uma fonte inesgotável de expressão. Por isso, na liturgia têm importância os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança.


208. A partir dos solenes apelos à inculturação, lançados pelo Episcopado Latino-Americano em Santo Domingo, a dança passa a ser uma questão de coerência e fidelidade a nossas raízes indígenas, ibéricas e africanas. Dessas três fontes culturais resulta um povo dançante, que tem direito a uma expressão litúrgica, na qual a dança ocupa um lugar significativo.

3.2.5.1. Pesquisar e criar de maneira criteriosa

209. É claro que temos de encontrar as maneiras de superar preconceitos e tabus, frutos de um passado puritano e repressivo, e resgatar expressões que, apesar de banidas dos templos, ainda continuam vivas na prática religiosa popular: Folias do Divino, Ternos de Reis, Danças de S. Gonçalo, Lapinhas etc. Ainda mais: precisamos promover o desabrochar de tal expressão na vivência celebrativa de nossas comunidades rurais e urbanas.

210. Convém lembrar aqui que o mesmo princípio geral da renovação litúrgica de não cantar “na” liturgia, mas “a” liturgia, vale também para a dança. Quando no ato litúrgico é introduzida uma dança que está fora do contexto celebrado, dança-se “na” liturgia, e não “a” liturgia. Podemos aprender da nossa religiosidade popular e de muitas outras expressões religiosas variadas formas de danças que fazem parte integrante de seus ritos.

3.2.5.2. Fidelidade às nossas raízes indígenas, ibéricas e africanas

211. Vale afirmar a esta altura a importância da presença africana, nestes 500 anos de história do povo brasileiro, como aquela que, de maneira mais ampla e profunda, marcou e continua caracterizando a nossa cultura.

212. Uma Evangelização que não assume o patrimônio cultural dos diversos povos resulta num paralelismo entre uma ambiência litúrgica desarticulada e o meio de vida corrente, tendo como consequência a marginalização de culturas e vivências religiosas exuberantes, vitais e comunicativas, por uma liturgia cristalizada, inibidora e engaiolada.

213. Importante para nós é saber do caráter sagrado e comunicativo da dança, numa cultura que tem tanto a ver com a nossa. Na concepção africana de vida, o corpo, longe de ser “prisão” da alma, é o mediador de comunhão com o mundo material, vegetal, humano e espiritual. A comunhão com este mundo imenso não se limita aos fenômenos perceptíveis. Vai muito além e se realiza justamente pelo movimento ritmado do corpo, acompanhado de gestos, de dança. É o que acontece nas famosas “palabres”, tradicionais assembléias africanas, que são cerimônias comunitárias, onde todos participam respondendo, cantando e dançando.

214. Em muitas religiões, a dança testemunha a profundidade de sentimentos e simboliza uma tomada de contato com o domínio do mistério; a dança, durante assembléias, atesta a percepção de uma densidade particular de sentimentos que nenhum outro meio normalmente poderia exteriorizar.

215. Dançando, então, ao comungar profundamente com a comunidade no mesmo ritmo, nos mesmos gestos e movimentos (horizontalmente), é que se consegue transcender e comungar com o Além (verticalmente).

216. Não se trata, então, de dar receitas de danças litúrgicas, mas de incentivar uma busca de fidelidade e coerência, que nos leve aos poucos, com a sabedoria e o equilíbrio do amor e da verdade, a resgatar “o corpo”, como mediação universal, e a “dança”, como instauradora de harmonia entre espírito e corpo, no indivíduo; entre pessoa e comunidade; entre o mundo visível e o invisível.

217. Como celebrar nossa libertação plena em Jesus Cristo (Gl 5,1) sem liberar antes de tudo nosso corpo através da dança, na festa da libertação que é nossa liturgia?

218. Nesses anos fecundos de renovação da vida eclesial, até já podemos nos alegrar com o advento de uma música litúrgica que vem progressivamente incorporando melodias, ritmos e instrumentos que brotam de nossas raízes indígenas, ibéricas e, sobretudo, africanas. Seria uma contradição adotar toda essa riqueza rítmica e musical ao cantarmos e tocarmos em nossas celebrações da Fé sem liberar nosso corpo para, através da dança, atingirmos a plena expressão.

219. Em fidelidade ao Mistério da Encarnação, poderíamos parafrasear mais uma vez o Evangelho de João e dizer que “o Verbo se fez dança e exultou no meio de nós!”. Neste sentido, vale retomar aqui a definição de Liturgia atribuída a Romano Guardini: “Liturgia são os filhos e as filhas de Deus brincando diante do Pai”. Não foi por acaso que, na Campanha da Fraternidade de 1993, a Igreja no Brasil cantou no Canto de Comunhão: “És, Senhor, o Deus da Vida, és a festa, és a dança”!

3.3. MINISTÉRIOS E SERVIÇOS DO CANTO

3.3.1. A unidade da assembléia e a diversidade dos serviços

220. Quando a assembléia litúrgica se reúne para celebrar o Mistério de Cristo, ela se serve de pessoas (os diversos ministros), e de coisas (música, flores, incenso, velas etc.) que passam, então, a desempenhar um papel ministerial na celebração.

221. Em se tratando de pessoas, aí está a Equipe Litúrgica, que cuidou da preparação da celebração e vai assumir as várias tarefas de animação e coordenação. Dela faz parte o ministro ordenado, diácono, presbítero ou bispo, mas também toda a sorte de servidores e servidoras, pessoas encarregadas da limpeza e ornamentação do ambiente, de acolher o povo à entrada, leitores e leitoras, comentaristas, o animador ou animadora do canto, o coral ou grupo de cantores, o regente e instrumentistas, alguém que pronuncia preces ou louvores; tudo isto para que o povo possa sentir a presença e a ação do Senhor e se sinta devidamente servido.

222. A partir do Concílio Vaticano II, vem crescendo a convicção de que a distribuição de tarefas entre os membros de uma comunidade celebrante passou a ser regra. E é a própria Constituição sobre a Sagrada Liturgia que já recomenda: Nas celebrações litúrgicas, cada um, ministro ou fiel, ao desempenhar a sua função, faça tudo e só aquilo que pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas lhe compete.

223. O Povo de Deus, sobretudo na assembléia litúrgica, se expressa como um povo sacerdotal e organizado, no qual a diversidade de ministérios e serviços concorrem para o enriquecimento de todos. Sua unidade e harmonia é um serviço do ministério da presidência. Convocada por Deus, a assembléia litúrgica, expressão sacramental da Igreja, unida a Jesus Cristo, é o sujeito da celebração.

3.3.2. O autor (letrista ou poeta)

224. Em se tratando de Liturgia cristã, a melodia está a serviço do texto. Seu papel é cantá-lo, realçando, através da melodia, do acompanhamento instrumental e da dança, seu conteúdo, sua poesia, sua dimensão de Fé, de Esperança e de Amor. Quais as fontes de inspiração do autor ou letrista litúrgico?... Se ele está a serviço de comunidades que se reúnem para celebrar a vida, sua primeira fonte de inspiração outra não poderá ser senão a própria vida.Por isso, o poeta litúrgico só conseguirá realmente sê-lo, se for pessoa profundamente entrosada com seu povo, imbuída de seus anseios, participante de suas lutas, fracassos e conquistas, alguém que comunga de coração com sua gente. Um bom letrista litúrgico faria muito bem em se espelhar nas palavras iniciais e solenes da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, a Gaudium et Spes, que assim rezam: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo.

225. Em estreita ligação com essa primeira exigência, também é necessário que o autor de textos para o canto litúrgico esteja imbuído da cultura musical do seu país, da sua região, naquilo que é o jeito peculiar de os poetas populares escreverem e estruturarem os textos, os versos a ser musicados: o imaginário, o vocabulário, a métrica, o sistema de acentos e de rimas... Para a celebração cristã da vida, nada melhor que cantar a vida e a fé com poemas que trazem a marca, a identidade cultural do povo, e se enraízam tanto no Folclore quanto na Música Popular, e mesmo em algumas expressões musicais urbanas mais recentes.

226. Exigência primeira e fundamental é a referência à Bíblia, recebida como Palavra de Deus que ilumina e orienta a vida e a história de um povo. Essa é preciosa herança legada por nossos pais e mães na fé às gerações que se sucedem, referência primeira da nossa identidade cristã. O conhecimento bíblico, especialmente dos Salmos, e a leitura orante da Sagrada Escritura serão de fundamental importância para a composição dos textos dos cantos destinados à liturgia.

227. Os Salmos e Cânticos Bíblicos são, de fato, a melhor escola de oração cristã e o melhor modelo de texto. Pela sua riqueza poética, pela força ou suavidade das imagens, os Salmos e Cânticos Bíblicos mais eficazmente nos levam a intuir o Mistério e comungar com as realidades invisíveis, envolvendo mais profundamente quem canta ou escuta e deixando, ao mesmo tempo, a cada um, a liberdade de fazer seu próprio caminho, sua própria “viagem” interior. O que estamos afirmando poderia ser ilustrado com inúmeros exemplos. Preferimos remeter o leitor ou leitora ao núcleo mais significativo do próprio Saltério, os chamados Salmos das Subidas, resumo orante de toda a espiritualidade do Antigo Testamento, que foi, com certeza, a base da experiência celebrativa da família de Nazaré, quando ia todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa (Lc 2,41). Eles serão o poço onde os autores ou letristas litúrgicos poderão continuamente beber.

228. Outra referência fundamental é o conhecimento da função específica do canto ao longo da celebração. O autor ou letrista litúrgico precisa estar a par da programação ritual, do significado de cada momento, do papel que cada canto terá em cada momento da celebração. O texto corresponda, então, à função ritual litúrgica que dele se espera ao ser musicado e interpretado nas diversas partes da celebração e esteja, também, em consonância com os diversos tempos litúrgicos. Os textos sugeridos nos próprios livros litúrgicos, muitos deles consagrados por longa tradição, são, com certeza, repertório exemplar e fonte de inspiração indispensável.

229. Para serem realmente celebrativos, insistimos, os textos dos cantos litúrgicos sejam poéticos, orantes, e não explicativos e doutrinários, nem textos adaptados de outros cantos, pois a finalidade da liturgia não é doutrinar, mas celebrar a Aliança entre Deus e seu Povo. Chavões, lugares-comuns, expressões desbotadas ou forçadamente “fabricadas”, mero jogo de rimas, carentes de poesia e unção, enfraquecem o texto e desvalorizam o canto litúrgico.

230. Os textos sejam apropriados para os diversos gêneros musicais e suas funções específicas na liturgia: Hinos (metrificados), com ou sem refrão, Recitativos, Aclamações, Proclamações, Responsórios etc. 

231. Alguns lembretes:
  • Os versos do poema tenham um fraseado popular, evitando frases demasiado longas, a fim de facilitar a participação do povo na hora de cantar.
  • A letra dos hinos estróficos siga a mesma métrica em todas as estrofes, ou seja, um mesmo padrão de sílabas acentuadas (tônicas) e não acentuadas (átonas), para evitar atropelamentos na hora da execução.
  • Embora a rima sozinha não seja por si só poesia, ela facilita a memorização e a execução do canto, além de tornar o texto mais popular. O texto dos cantos litúrgicos faça uso abundante de imagens e símbolos.
  • Enfim, todos os textos do canto litúrgico sejam vazados de uma linguagem poética.
3.3.3. O músico (compositor)

232. O compositor é responsável pela música que criou. Compor música litúrgica é um serviço de grande responsabilidade eclesial.

233. Submeter a própria composição à avaliação de outros músicos litúrgicos, bem como utilizá-la previamente, a título de “teste”, em algumas celebrações, parece ser um método muito apropriado, possibilitando a correção de eventuais erros ou impropriedades e a melhoria da música antes da sua divulgação.

234. Conforme sua função ministerial, uma música será tanto mais litúrgica quanto mais se integrar à parte da celebração em que deve ser executada (SC 112). Portanto, partindo do pré-requisito da primazia do texto (SC 121), a composição deve levar em conta as exigências inerentes à função ministerial dos diversos cantos.

235. O canto litúrgico não pode prescindir da experiência musical popular e folclórica.Conseqüentemente, para criar uma música litúrgica inculturada, o caminho correto não é o de usar melodias existentes, transpondo-as para a liturgia com um novo texto, mas sim o de criar algo novo, trabalhando com as constâncias melódicas, rítmicas, formais, harmônicas e instrumentais da música brasileira, levando em conta a comunidade concreta, a cuja oração comunitária cantada o compositor queira servir.

236. O músico, o compositor tenha presente que, quanto à estrutura de uma música e à sua execução, distinguem-se três formas:

a) Forma direta:
A execução pura e simples de um canto por um cantor ou grupo, sem refrão ou alternância. Por exemplo: as Leituras, o Prefácio, a Salmodia direta.

b) Forma dialogada:
É a execução de um canto por um solista ou um grupo, dialogando com a assembléia.
O solista pode ser quem preside, ou o diácono, ou um salmista, dependendo do momento ritual. Por exemplo: as saudações, o diálogo do Prefácio, as ladainhas, os salmos e hinos responsoriais.

c) Forma alternada:

É a execução de um canto (um salmo ou um hino) por dois grupos, formados na própria assembléia. Por exemplo: a assembléia se divide em lado A e lado B; vozes femininas e masculinas etc.

237. Os cantos processionais podem ser executados de três maneiras:

a) Tropo com refrão e versos: Consiste num texto em prosa, de inspiração bíblica, de extensão moderada, possivelmente cantado a vozes por um coral, executado só no início e no fim do canto. Desemboca num curto refrão, que é repetido entre alguns versos. Por exemplo:Como o sol nasce da aurora (Sl 80).

Vantagens:
  • A sua estrutura dialogal, o fato de envolver todos os atores de uma celebração: coro, assembléia, solistas;
  • O enriquecimento que acrescenta ao texto bíblico, comentando-o ou aplicando-o ao momento atual da celebração;
  • As ricas possibilidades musicais que oferece: monódicas, polifônicas e instrumentais.
b) O salmo com refrão: Consiste no Salmo bíblico dividido em estrofes e um refrão. Exemplo: O Senhor é minha luz (Sl 27).

Vantagens:
  • Familiarizar o povo com os Salmos;
  • Facilitar a participação da assembléia, por meio de um curto refrão.
c) O canto estrófico: É o canto dividido em estrofes, intercalado ou não com um refrão. Exemplo: Eu quis comer esta ceia agora,60 Nossa Alegria,61 Senhor, quanto mais caminho(ODC, nº 239).62 Cantai, cristãos, afinal (HL-2, p. 123).

Vantagens:
  • É a forma mais popular e divulgada, usada também para acompanhar uma procissão;
  • A forma mais indicada para a participação de toda a assembléia é a do canto estrófico com refrão.
238. Alguns lembretes técnicos:
  • A melodia realce bem o significado do texto, pois este tem a primazia na ação litúrgica. Quando o texto diz algo que a melodia não reafirma, o resultado é confuso. Portanto, o texto seja bem trabalhado, antes de ser musicado, e a melodia inspirada no que diz o texto. Por exemplo, o canto do Ato Penitencial deve conter melodia e ritmo que expressem arrependimento e perdão.
  • Na composição da nova música litúrgica, a língua — através de seu ritmo, sua melodia embrionária e do sentido do texto — deve ser a principal fonte de inspiração. O canto, por natureza, está intimamente vinculado à palavra: o canto é palavra que desabrocha em melodia, harmonia e ritmo. O compositor procure saber, de antemão, que tipo de melodia e ritmo tenham mais afinidade com a prosódia e o espírito do texto.
  • Um canto litúrgico é feito, sobretudo, para ser executado pela assembléia. A parte vocal do solista ou o som dos instrumentos musicais — seja acompanhando o canto dos fiéis ou na forma solo de prelúdio, interlúdio e poslúdio — têm a sua função própria na ação litúrgica. A parte vocal destinada à assembléia deve adaptar-se à tessitura média da voz humana, ou seja, do “Dó 3” ao “Dó 4”, aproximadamente. Por isso, notas graves, como, o “Lá 3”, e notas agudas, como o “Ré 4”, devem servir apenas como notas de passagem.
  • É necessário que as melodias tenham pausas de respiração suficientes, nos momentos certos.
  • O acento rítmico do compasso sempre coincida com o acento tônico da palavra. Sílabas não acentuadas (átonas), ao caírem no tempo forte do compasso, deformam a palavra (Terrá / Horá / Diá / Lóuvor / Ámor etc.).
  • Dê-se preferência ao uso da escala diatônica. Cromatismos complicados e intervalos difíceis dificultam a execução das melodias.
  • Um canto se torna fluente não só pelo ritmo, mas também pela sua qualidade sonora do texto e da linha melódica. Sejam evitados a aglomeração de trechos melódicos desconexos e recitativos repetitivos, sem originalidade. Sequências melódicas que repetem o mesmo motivo mais de três vezes perdem seu vigor.
3.3.4. Quem preside a celebração litúrgica

239. Quem preside tem plena liberdade quanto ao canto de uma ou mais partes da celebração que é de sua competência cantar.

240. Certamente, a Oração Eucarística se tornaria o ponto culminante da celebração, se os que presidem cantassem o Prefácio (seguido do “Santo” cantado), a narrativa da instituição, a aclamação memorial e a doxologia. O canto dessas partes da Oração Eucarística, além de dar maior expressividade a cada uma delas, resgataria valores preciosos que as Igrejas Orientais até hoje conservam.

241. A melodia do canto das partes que competem à presidência, em princípio, tenha o caráter de recitativo simples. Esta forma musical, além de facilitar a sua execução não correrá o risco de ofuscar os textos litúrgicos proferidos por quem preside a celebração.

242. Quem preside deve dirigir-se à assembléia, cantando:
  • Quando tiver capacidade para tal;
  • Quando a própria assembléia puder responder de forma mais unânime e viva;
  • Quando for capaz de solicitar e acolher as observações e sugestões dos membros da comunidade, a respeito da qualidade de seu canto.
243. O novo Missal, como também o Hinário Litúrgico, 3º fascículo, da CNBB, oferece vários módulos para a “cantilação” dos Prefácios e da Narração da Instituição da Eucaristia e para outros elementos da Prece Eucarística.

244. Para se recuperar a tradição de cantar as diversas partes que competem a quem preside, é de vital importância que tal prática seja incentivada nos Seminários e nas comunidades.

3.3.5. O animador ou animadora de canto

245. A função do cantor é tão antiga quanto a sinagoga, onde ele (chazan) cumpre a dupla tarefa de cantar e proclamar as Escrituras.

246. É importante a participação de pessoas adequadamente preparadas para os papéis de solistas e de animadores, principalmente nos lugares onde ainda não existem pequenos grupos de cantores ou mesmo nas celebrações nas quais o coral não pode atuar.

247. A celebração dos Mistérios da Fé é função de todo o povo de Deus e se processa num rico diálogo entre os ministros e a assembléia, e destes com Deus. Este diálogo tem no canto o seu momento mais expressivo. Cabe, portanto, ao animador ou animadora de canto:
  • Orientar a escolha dos cantos a ser cantados na celebração;
  • Dosar o repertório, promovendo o equilíbrio entre tradição e novidade, repetição e variedade, de modo que mantenha a assembléia, ao mesmo tempo, segura ao cantar os cantos da sua tradição e contente em poder renovar o seu repertório. Afinal, todo escriba versado nas coisas do Reino de Deus sabe tirar do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13,52);
  • Animar o canto da assembléia, de modo que esta participe ativamente do canto de refrãos e hinos, das respostas e aclamações à Palavra proclamada e, especialmente, de todos os elementos ‘cantáveis’ da Prece Eucarística.
  • Encontrar, com a sua sensibilidade e criatividade, a expressão corporal mais adequada a cada tipo de canto, a cada ritmo, provocando pouco a pouco a assembléia, com naturalidade e simplicidade, a expressar-se em gestos, aplausos e dança, em certos momentos da celebração.
248. Orientações básicas para os ensaios de canto:
  • Nunca se deve dizer que tal ou qual canto é difícil ou feio, já predispondo negativamente a assembléia;
  • Quando oportuno, é bom fazer uma brevíssima introdução, antes de iniciar o ensaio de um canto, destacando o que há de mais importante em seu texto e a sua função litúrgica;
  • Iniciar o ensaio pedindo à assembléia que, enquanto se canta, ela acompanhe silenciosamente, escutando bem a melodia e lendo o texto, sobretudo quando se trata de um canto desconhecido;
  • Quando a comunidade já o estiver acompanhando, é hora de elogiá-la;
  • Durante o canto, fazer pequenos gestos de regência;
  • A expressão facial deverá ser sempre alegre, incentivadora;
  • É bom lembrar que a base para cantar bem está na respiração e que a função do cantor é ensinar a cantar. Não se canta apenas com a boca, mas com todo o ser.
3.3.6. O(a) salmista

249. O(a) salmista exerce o ministério litúrgico de cantar o salmo após a proclamação da primeira leitura da Missa ou da celebração dominical da Palavra. O salmo é entoado na estante da Palavra onde o(a) salmista entoa as estrofes e a assembléia repete o refrão. O salmo responsorial é o canto mais importante da liturgia da Palavra, por isso, além do pré-requisito de uma boa voz, o(a) salmista deverá executá-lo com o máximo de expressividade e clareza, numa atitude orante, como convém a todos que exercem o ministério de proclamar a Palavra de Deus.

250. Durante a execução do salmo, o(a) salmista cante sempre a melodia principal do refrão e das estrofes do salmo. Portanto, evite-se quaisquer artifícios que venham dificultar a assembléia na compreensão do texto, por exemplo, o uso de uma segunda voz ou contracanto.

251. Não se deve, por hipótese alguma, admitir “cantores profissionais” contratados apenas para “dar show” na celebração. Isso desmerece totalmente o trabalho das equipes de celebração, além de transformar a própria celebração em mera formalidade “social”, sem significado litúrgico verdadeiro, mais “comércio” que liturgia.

3.3.7. O(a) regente

252. O(a) regente, antes de tudo, tenha uma formação litúrgico-musical adequada e assuma a atitude de alguém que acolhe fraternalmente seus amigos. Seus gestos e toda a sua pessoa devem estimular a participação da assembléia no canto.
  • Esteja bem visível. Sob pretexto de não querer “aparecer”, compromete a eficácia dos seus gestos, não estando bem posicionado(a).
  • Inspire estabilidade ao ficar com os joelhos, o corpo, a cabeça e os ombros retos, porém sem nenhuma rigidez.
  • Tenha as mãos livres. Se não souber reger de cor, haja uma estante bem colocada e iluminada, para aí apoiar o livro ou a partitura.
  • Esteja em sintonia com os diversos ministérios: presidente, leitores, salmista, organista, músicos, coral, equipe de celebração e assembléia.
3.3.8. O coral

253. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II não aboliu o coral. Pelo contrário, o incentivou. Um coral bem formado e orientado, poderá prestar um importante serviço à assembléia, exercendo um ministério múltiplo ora reforçando o canto litúrgico da assembléia em uníssono ou enriquecendo sua melodia com um arranjo vocal a mais vozes. O coral poderá cantar sozinho, em alguns momentos da celebração: durante a procissão das oferendas, durante ou logo após a comunhão.

254. O coral desempenha um verdadeiro ministério litúrgico, daí, sua importância no conjunto dos ministérios da assembléia litúrgica.

255. Função ministerial do coral
  • Enriquecer o canto do povo, com maiores possibilidades de variar os textos e as melodias;
  • Criar espaços de descanso que fomentem a contemplação em celebrações mais festivas ou até, uma vez ou outra, substituindo o povo no canto.
256. Para que a celebração expresse a índole cultural de uma assembléia concreta, continua valendo para os corais o que Pio XII recomendou: Tenham em conta as exigências da comunidade cristã, mais do que o critério e o gosto pessoais dos artistas. Nesta mesma direção, os documentos posteriores continuam insistindo na necessidade de a Igreja e sua Liturgia se encarnarem na cultura e na música de cada país.

257. Para que o coral não intimide a participação do povo, transformando-o em mero ouvinte, os compositores poderão prestar um grande serviço, empenhando-se na composição de músicas que possibilitem a perfeita integração entre coro e assembléia, seja cantando simultaneamente ou de forma alternada.

258. Para exercer sua função ministerial junto à assembléia, o lugar do coral deverá ser previsto de tal forma, que fique próximo aos fiéis na nave, à frente, entre o presbitério e a assembléia (à direita ou à esquerda), sem impedir a visão do povo, e não longe do(s) instrumentistas.

259. As construções das igrejas devem contemplar o lugar do coral na modalidade acima descrita.

260. Cada um dos membros do coral deve ser oportunamente incentivado à participação plena na celebração, dos ritos iniciais aos ritos finais, como ouvintes atentos da Palavra, intérpretes ardentes do louvor e participantes fervorosos do Mistério da Fé, evitando comportamentos que deixem a desejar ou desedifiquem a Assembléia e desmereçam o próprio ministério.

261. Os pastores e regentes de corais procurem dar aos cantores, além de uma formação técnico-musical, um preparo genuíno litúrgico-espiritual, para poderem exercer corretamente seu ministério em função da oração comunitária e conseguir para si mesmos um real proveito espiritual. Nesta formação técnica e espiritual incluirão as orientações de comissões e associações musicais diocesanas, nacionais e internacionais.

262. O coral prestará um serviço real e eficiente quando o mesmo assumir o compromisso contínuo, e não apenas ocasional, com a comunidade.

3.3.9. Os instrumentistas

263. Os instrumentos podem ser de grande utilidade na liturgia, quer acompanhando o canto, quer sem ele,74 à medida que prestam serviço à Palavra cantada, ao rito e à comunidade em oração. Assim como a voz humana, o instrumento musical não deve ser classificado como sacro ou profano. O uso de determinados instrumentos na liturgia vai depender do contexto no qual se insere a comunidade celebrante: se um instrumento consegue integrar-se na liturgia, especialmente no acompanhamento do canto dos fiéis. Vale lembrar que os documentos da Igreja abriram espaço para uma inculturação dos instrumentos musicais: Para admitir e usar instrumentos na liturgia, deve levar-se em conta o gênero, a tradição e a cultura de cada povo.

264. A Instrução “Musicam Sacram” (1967), além de reconhecer a utilidade e a importância dos instrumentos musicais na liturgia, apresenta-nos também suas principais funções: sustentar o canto, facilitar a participação, e criar a unidade da assembléia. E adverte-nos: “O som deles (instrumentos) no entanto, jamais deverá cobrir as vozes, de sorte que dificulte a compreensão dos textos. Calem-se quando o sacerdote ou o ministro pronunciam em voz alta algum texto, por força de sua função própria”.

Quanto aos solos instrumentais, a mesma Instrução - tomando como referencial a liturgia eucarística - prevê quatro momentos adequados para este tipo de música: no início, durante a procissão de entrada do presidente e demais ministros; enquanto se faz a procissão e a preparação das oferendas; à comunhão e no final da missa.

265. Entre os nossos instrumentos musicais de corda mais característicos e mais usados pelas comunidades, destacam-se: o violão, a viola, o cavaquinho. Os instrumentos de percussão, tambores e seus congêneres, gozam de imenso respaldo tanto na tradição bíblica quanto, muito especialmente entre nós, nas tradições ibérica, indígena e africana; sobretudo em se tratando de música popular de ritmo marcante, seu uso será sempre imprescindível, não faltando quem já tenha observado o grande poder que tem, por exemplo, um atabaque de convocar o povo para a oração e criar um clima de silêncio e recolhimento. O acordeão é de grande familiaridade nos meios populares, provindo tanto do mundo ibérico quanto, através de imigração mais recente, da cultura alemã e italiana; também o órgão é bastante utilizado, por suas qualidades intrínsecas e seu enraizamento histórico. As flautas, pela analogia com o órgão e pela tradição bíblica, folclórica e indígena; os metais (trompete e trombone), pela tradição bíblica e eclesiástica da Renascença.

266. O instrumento usado seja tocado sempre de forma adequada ao momento celebrativo e à natureza da assembléia, nunca abafando a sua voz ou a do coral. É mister recordar a necessidade de considerar a proporcionalidade entre os instrumentos musicais e o espaço celebrativo. Muitas vezes este aspecto é descuidado quando, por exemplo, um modesto violão tenta, em vão, dar conta do acompanhamento do canto numa catedral; ou quando, noutro extremo, uma banda musical, sem levar em conta o pequeno espaço de uma capela, carrega demasiadamente na quantidade de instrumentos e no volume do som.

267. O equilíbrio entre os instrumentos de percussão e os de base harmônica é fundamental para que seja dado espaço e realce ao instrumento de solo, que, principalmente nas introduções dos cantos, facilita a entrada uniforme dos cantores e da assembléia.

268. Não seria supérfluo recomendar mais sensibilidade da parte de comentaristas, animadores de canto e de celebração, e até daqueles que presidem, para com o serviço do instrumentista. Às vezes, esses agentes interrompem abruptamente o prelúdio ou interlúdio que está sendo executado por ele.

269. Tocar um instrumento musical exige atitude espiritual, ainda mais quando se trata de uma celebração litúrgica. Portanto, o(a) instrumentista, como ministro(a) da celebração, deve estar profundamente envolvido(a) na ação litúrgica por sua atenção e participação. Para os instrumentistas, vale, igualmente, quanto se disse acima a respeito da participação dos membros do coral.

3.4. O CANTO NA LITURGIA

3.4.1. Música para pôr em evidência os “sinais dos tempos” (Lc 24,13-24)

270. A ousadia dos cristãos começa pela sinceridade crítica ao encarar a realidade e pela franqueza ao emitir seu ponto de vista sobre ela. Esse olhar, feito de verdade e amor, resulta numa sabedoria semelhante à de Maria, tal como podemos encontrar em Lucas, e nos capacita tanto para anunciar quanto para denunciar.

271. Quando, então, a assembléia se reúne, especialmente no dia do Senhor, para celebrar a sua fé, traz para a celebração toda essa realidade de vida do povo, partilhada e meditada. E ao “fazer memória” dos acontecimentos que passaram, vai sentir necessidade de cantos, de música, quem sabe, de coreografia e dança, que ponham em evidência tudo quanto vai sendo sinalizado por esses acontecimentos. Música, canto e dança que nos alertem para os desafios da realidade presente, sem descuidar do aspecto orante e contemplativo da celebração.

272. O bom senso, a presença de espírito, o discernimento e o bom gosto da Equipe de Animação Litúrgica se encarregarão de escolher ou criar o canto certo para o momento certo da celebração, em que se fará a “Recordação da Vida”, seja imediatamente antes da proclamação das leituras bíblicas, seja ao longo da homilia, à guisa de ilustração.

3.4.2. Música, canto e dança a serviço da Palavra (Lc 24,25-27)

273. A esperança cristã desponta como o sol do amanhecer, quando “os sinais dos tempos” são confrontados com a experiência da Palavra de Deus, vivida por nossos pais e mães na fé, que a deixaram registrada nas páginas da Bíblia.

274. É assim que a assembléia passa a dar-se conta com maior clareza e profundidade da “passagem” libertadora de Deus em sua vida. Ao descobrir o sentido maior dos acontecimentos e perceber aí a ação do Espírito do Ressuscitado, os discípulos de hoje vão recobrando a esperança e reavivando a chama da fé, da esperança e do amor. Seus corações vão de novo esquentando, à medida que a mente se ilumina. E a comunidade, apesar dos pesares, vai adquirindo um novo sentido, novo gosto e impulso.

275. A música, o canto, a dança têm aí papel de primordial importância:
  • Seja na proclamação das leituras bíblicas, sobretudo do Evangelho, ponto culminante da Revelação;
  • Seja como resposta à Palavra proclamada, ruminando-a, mastigando-a, interiorizando-a, como é o caso do Salmo Responsorial, após a primeira leitura, na celebração dos Sacramentos ou Celebrações da Palavra; ou dos Responsos, no canto do Ofício Divino;
  • Seja como preparação à escuta da Palavra, como parece ser o caso dos Salmos e Cânticos Bíblicos na celebração do Ofício Divino;
  • Seja como Aclamação, antes ou depois da proclamação do Evangelho. 
3.4.3. Música para dar realce aos gestos sagrados (Lc 24,28.31.35)

276. Ser cristão é, sobretudo, assumir em sua prática de vida o agir do próprio Cristo, deixar-se conduzir pelo dinamismo criador e renovador do seu Espírito, fazer-se instrumento da ação libertadora de Deus (2Cor 5,17; Fl 1,21; Gl 2,20; Rm 8,14; Mt 7,15-27; Jo 14,12; 15,1-6).

277. A celebração cristã da vida se justifica, se motiva e se consubstancia precisamente como expressão solene e testemunho vibrante da vida de uma comunidade, toda dedicada a fazer o bem e concretizar a vontade de Deus (Tt 2,14).

278. Por isso, não basta proclamar as Escrituras e recordar os fatos salvíficos de Deus, em Cristo, no passado. Nem enaltecê-los com a mais vibrante das homilias. Tudo isso seria, no melhor dos casos, uma bela aula de História. O que interessa, no momento da celebração, é perceber esse mesmo Deus agindo no hoje de nossas vidas. E a satisfação que brota de tal experiência é que nos estimula a encarar o futuro com esperança.

279. A Liturgia da Palavra já nos possibilitou ricos momentos de VER com realismo e sabedoria essa realidade de vida, de julgá-la à luz da Escritura, e já perceber esse AGIR de Deus em nós.

280. Mas vai ser no momento seguinte, no coração do Memorial, quando proclamarmos as obras maravilhosas daquele que nos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (1Pd 2,9) e repetirmos os gestos simbólicos do agir divino: Façam isso em memória de mim (Lc 22,19), que celebraremos, em música, canto e dança, o AGIR de Deus, por Cristo, em nós, dando assim pleno sentido e concretude:
  • ao canto que acompanha a procissão das oferendas para a Ceia do Senhor, expressão inicial da entrega de nossas próprias vidas, em Cristo;
  • aos Prefácios e Louvações que precedem os gestos sacramentais, culminando no “Santo”, momento apoteótico na introdução da Oração Eucarística;
  • a toda a Oração Eucarística, com seus vários elementos de invocação do Espírito, narração da Ceia e retomada dos gestos de Cristo, rememoração do Mistério Pascal e as correspondentes aclamações;
  • ao canto do “grande Amém” (Doxologia final), cantado por todos;
  • ao canto do “Cordeiro”, ao repartir o Pão a ser distribuído;
  • ao canto de Comunhão, sintonizado com a Liturgia da Palavra, e ao canto após a Comunhão.
281. Tudo o que foi dito é aplicado também para todos os sacramentos e bênçãos, bem como para as assembléias que se reúnem para as Celebrações da Palavra.

282. Todos eles têm esse caráter de realçar vigorosamente a ação de Deus, em Cristo, pelo Espírito que atua em nossas vidas, como um passado, que vem se atualizando em nosso agir presente, nesses últimos dias (Lc 24,18), e nos projeta para um futuro de plenitude. Sim, porque toda essa Ação de Graças, toda essa exultação pelo bem realizado, pelas concretizações do Reino, têm como desfecho o compromisso que se renova e aprofunda na perspectiva do crescimento, de um caminhar cada vez mais decidido para a Terra Prometida,até que ele venha (1Cor 11,26).

3.4.4. O canto e o rito

3.4.4.1. Quando a música acompanha o rito

283. Em toda essa prática de tocar, cantar e dançar, há cantos cuja importância se prende ao fato de acompanharem determinada ação ritual, dando-lhe maior brilho e força de significação, promovendo a participação animada e prazerosa da assembléia.

284. Essa funcionalidade da música exige especial atenção dos autores (letristas), compositores (músicos) e demais agentes litúrgico-musicais, para que tanto as composições como a sua utilização e o próprio jeito de executá-las se afinem ao rito que acompanham.

285. Além do mais, esses ritos podem revestir-se de significados ou conotações especiais por conta da hora do dia, do tempo litúrgico ou da festa em que vão ser executados. Tudo isso exigirá especial atenção e cuidado dos artistas e demais agentes, para que música, canto e dança expressem da melhor maneira os apelos da hora, do tempo ou da festa.

3.4.4.2. Quando a música é o rito

286. Há momentos na celebração em que tudo o que se tem para fazer é tocar, cantar e dançar. A música então é o próprio rito (por exemplo, o pedido de perdão no Ato Penitencial, o Sinal-da-Cruz, o Glória, a Profissão de Fé, o Prefácio, o Santo, as Aclamações, o Cordeiro, a Bênção final com a Despedida...). É claro que esses momentos vão necessitar de especial intuição e esmero dos artistas, mas também dos animadores do canto da assembléia e de quem preside.

287. Um belo arranjo instrumental, um canto brilhante e uma rica coreografia poderão provocar, nesses momentos, verdadeiras apoteoses, como no caso do Glória, da Aclamação ao Evangelho e das grandes Aclamações Eucarísticas; ou então profunda meditação e interiorização, como no caso do Salmo Responsorial ou de um canto após a Comunhão.

288. Importantíssimo seria encontrar a melhor formulação em texto e melodia para peças de significação maior como o Prefácio ou Louvação, e partes da Oração Eucarística, como a invocação do Espírito, a rememoração do Mistério Pascal.

3.4.5. A reserva simbólica

289. Nas suas manifestações folclóricas, para cada tempo, cada festa, cada tipo de evento, a repetir-se todo ano em determinada época, o povo reserva naturalmente determinado tipo de música. Ninguém ouve música de “quadrilha junina” no carnaval, nem frevo ou samba carnavalesco na noite de São João. Ninguém toca o Hino Nacional no dia das mães, nem canta “Minha Mãezinha Querida” num desfile militar de 7 de setembro.

290. Cada tempo, cada festa, cada evento, têm suas músicas características. Essas músicas carregam consigo poderosa eficácia simbólica. São elas que, por força desta mesma reserva, têm a virtude de criar o clima próprio de cada tempo, festa ou evento. O que não aconteceria, se fossem cantadas aleatoriamente em qualquer oportunidade.

291. Ora, essa “sabedoria do povo” (folclore) pode nos ajudar a todos, comunidades, artistas e agentes litúrgico-musicais, a resgatar uma maior coerência, que no passado havia, quando se cantava o Canto Gregoriano, ao se repetir cada ano, em cada tempo litúrgico, em cada dia ou festa especial, os cantos próprios daquele tempo, daquele domingo, daquela solenidade.

292. E quando uma música, um canto novo, por alguma razão se impõe, que não seja por mera mania consumista de novidade, que ele seja composto e executado em sintonia com essa tradição que o precede e inspira. Só assim conseguiremos fazer experiência musical e litúrgica que realmente cumpra seu papel simbólico.

3.4.6. Graus de importância do canto litúrgico na celebração eucarística

293. Os cantos da celebração eucarística podem ser classificados, em grau de importância, em dois blocos: os que constituem um rito e os que acompanham um rito.

a) Principais cantos que constituem um rito:
  • Nos Ritos Iniciais: Senhor, tende piedade de nósGlória.
  • Na Liturgia da Palavra: Salmo responsorial; Creio.
  • Na Liturgia Eucarística: Prece Eucarística (diálogo inicial, prefácio, santo, aclamação memorial, intervenções da assembléia, doxologia final); Pai-nosso.
b) Principais cantos que acompanham um rito:
  • Nos Ritos Iniciais: Abertura; aspersão.
  • Na Liturgia da Palavra: Aclamação ao evangelho; respostas da oração universal dos fiéis.
  • Na Liturgia Eucarística: canto das oferendas; canto da fração do pão (Cordeiro de Deus), canto da comunhão.
294. Os cantos que constituem um rito são mais importantes do que aqueles que acompanham um rito. A grande vantagem daqueles é que seu texto não muda e podem ser cantados de cor, dispensando o “papel” (o folheto), que tanto dificulta a comunicação entre os participantes.

295. Os textos dos cantos que constituem um rito, em hipótese alguma, podem ser substituídos ou parafraseados.

296. Examine-se, também, se as melodias respeitam os diversos gêneros de textos: proclamações, aclamações, hinos etc., pois cada gênero tem uma função específica que deve ser acentuada pela melodia escolhida para esse texto.

297. A escolha das partes cantadas, o equilíbrio entre elas e o estilo de arranjo musical que vai ser usado reflitam a importância relativa das diversas partes da celebração litúrgica. Assim, um canto para a “Apresentação das Oferendas” excessivamente elaborado, seguido por um “Santo” apenas falado, pode fazer com que a Oração Eucarística pareça menos importante do que a preparação da mesa.

298. Fica, porém, em aberto uma questão: estaria mais de acordo com o processo de inculturação, se os textos das partes fixas fossem substituídos por textos metrificados, com rima, pela razão de na cultura musical brasileira ser pouco comum o uso de textos em prosa?

299. Além de ser postura ecumênica, seria muito bom e enriquecedor explorar o repertório da boa música usada nas outras igrejas cristãs, em que excelentes músicas inculturadas estão sendo criadas, como bem conservar e usar a rica herança da Igreja de cantos e motetos latinos.

300. Para que os participantes da celebração possam sentir-se cômodos e seguros naquilo que estão fazendo e se possa garantir uma boa celebração, com canto vibrante, é necessário verificar, antes de tudo, se o repertório está ao alcance da comunidade.

3.4.7. As aclamações

301. Em cada celebração eucarística, cinco aclamações, necessariamente, sejam cantadas, mesmo naquelas celebrações em que nenhuma outra parte for cantada: o “Aleluia”, o “Santo”, a Aclamação Memorial (logo após a narrativa da Instituição da Eucaristia), o grande “Amém” (após à doxologia final) e o “Vosso é o Reino...” (após o embolismo que se segue ao Pai-nosso). Na Celebração Dominical da Palavra, três destas aclamações não podem faltar: o “Aleluia”, antes do Evangelho, o “Santo”, após o canto da “louvação”, e o “Vosso é o Reino”, após o Pai-Nosso.

3.4.7.1. O “Aleluia”

302. Função: A aclamação “Hallelu-Jah” (“Louvai ao Senhor!”), que tem sua origem na liturgia judaica, ocupa lugar de destaque na tradição cristã. Mais do que apenas ornamentar a procissão do Livro, sempre foi a expressão de acolhimento solene de Cristo, que vem a nós por sua palavra viva, sendo assim manifestação da fé nesta presença atuante do Senhor. No caso de uma procissão da Bíblia (ou do Lecionário) já ter sido feita antes da primeira leitura, poderia ser executada uma dança (litúrgica) antes da proclamação do Evangelho, ao ser cantado o Aleluia.

Forma:
  • Por ser diferente do Salmo Responsorial, o verso entre o canto duplo do “Aleluia!”, em geral, é uma citação do Evangelho que se segue.
  • No tempo em que o “Aleluia!” é omitido, cante-se um verso aclamativo da Sagrada Escritura (por exemplo, Mt 4,4) ou uma doxologia do Novo Testamento (por exemplo, 1Tm 6,16 ou 1Pd 4,11 ou Ap 1,6).
  • O “Aleluia” ou o versículo antes do Evangelho podem ser omitidos, quando não são cantados,81 e substituídos por um momento de reflexão em silêncio.
  • É de bom costume repetir o “Aleluia!” após o Evangelho, como já ocorre em algumas comunidades. 
3.4.7.2. O “Santo”

303. Função: Para concluir o Prefácio da Oração Eucarística ou então para cantar o louvor de Deus na Celebração da Palavra, o povo todo aclama o Senhor com as palavras que Isaías ouviu os Serafins cantarem no Templo, na sua visão (Is 6,3 e Mt 21,9).

Forma:
  • O ideal seria se o “Santo” estivesse no mesmo tom em que o Prefácio foi cantado.
  • Por este canto pertencer à comunidade toda, eventuais arranjos de vozes para o coro nunca impeçam a participação do povo, mas antes a favoreçam e a reforcem.
  • Recomenda-se que o canto se atenha à própria Aclamação, sem se introduzir alterações no texto, mediante paráfrases.
3.4.7.3. A Aclamação Memorial

304. Função: O missal oferece algumas fórmulas que expressam o anúncio do Mistério Pascal, comemorando o abaixamento e a glorificação do Senhor e pedindo sua vinda. Das três aclamações propostas no Missal, as traduções mais “aclamativas” são a primeira e a terceira (“Vinde, Senhor Jesus!”; “Salvador do mundo, salvai-nos!”). Textos alternativos que expressam a fé na presença real, naquele momento, devem ser excluídos, pois alteram o sentido litúrgico do Mistério que se celebra. Esse é o momento do Memorial, do anúncio do Mistério Pascal, e não de devoção à Presença Real. Portanto, não se deve substituir essa aclamação por um canto eucarístico.

Forma:
  • Sendo uma das aclamações mais importantes da Missa, convém muito que seja cantada por todos, em resposta à introdução “Eis o mistério da fé!”, entoada por quem preside.
  • Seria muito funcional se a melodia desta introdução já indicasse com qual das três aclamações o povo deverá responder.
3.4.7.4. O grande “Amém” (Doxologia) (Rm 1,25; Ap 22,20s)

305. Função: Mediante esta aclamação, os fiéis, concordando com toda a Oração Eucarística, proclamada por quem preside, assumem-na solene e enfaticamente como sua.

Forma:
  • Para ser mais efetivo, o “Amém” pode ser repetido ou, de preferência, acrescentado com outro texto aclamativo, assim como o Missal prevê.
  • Também nesta aclamação, seria recomendável se o “Amém!” do povo estivesse no mesmo tom da doxologia, cantada por quem preside.
  • Arranjos musicais para vozes iriam reforçar bem esta aclamação comunitária.
3.4.7.5. A Aclamação “Vosso é o Reino”

306. Função: Esta aclamação desenvolve e conclui o embolismo que segue a Oração do Senhor.

Forma:
  • Esta doxologia é, propriamente, cantada por todos, sobretudo quando se canta o “Pai-Nosso” (Cf. hinário Litúrgico, 3º fascículo, págs. 29, 37, 48, 59, 60 e 63). Por fazer parte da Oração do Senhor, seria conveniente ambas as partes seguirem uma mesma melodia.
  • Também aqui o coral poderá destacar a aclamação do povo com arranjos de vozes.
3.4.8. Cantos do Ordinário

3.4.8.1. O “Senhor, tende piedade”

307. Função: A breve ladainha do “Senhor, tende piedade” tradicionalmente era uma oração de louvor a Cristo ressuscitado feito “Senhor”, pela qual a Igreja pedia que mostrasse sua amorosa bondade. Posteriormente, este canto foi incorporado ao rito penitencial e começou a fazer parte de um momento de reconciliação. Este rito vem ao encontro daqueles e daquelas que, ao defrontar-se com a divina presença, se sentem, talvez, acuados, como Simão Pedro após o milagre da pesca: Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador! (Lc 5,8). A música, o canto, a expressão corporal, nesse momento, devem propiciar o encontro com o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação (2Cor 1,3), que nos liberta de toda culpa e nos restitui a paz pelo Sangue de Cristo derramado na cruz (Cl 1,20). Além do tradicional “Senhor, tende piedade”, poderemos encontrar fórmulas mais ricas no Missal Romano ou nos Salmos penitenciais (Sl 15; 25; 32; 50-51; 81; 85; 95; 130).

Forma:
  • Os Hinários Litúrgicos da CNBB oferecem vários modelos para o canto: por exemplo, no 3º fascículo: “Senhor, Bom Pastor”, p. 80; “Senhor, Servo de Deus”, p. 82; ou, com o rito da aspersão, pp. 83-89.
3.4.8.2. O “Glória”

308. Função: O Glória, que é um hino antiquíssimo, iniciando-se com o louvor dos anjos na noite do Natal do Senhor, desenvolveu-se antigamente no Oriente, como homenagem a Jesus Cristo. Não constitui uma aclamação trinitária.

Forma:
  • A forma atual do “Glória” deixa perceber que houve uma superposição de fórmulas diferentes. As invocações: “Tende piedade de nós” eram certamente respostas do povo, em fórmula litânica.
  • A entoação inicial deste hino não é mais reservada a quem preside e pode ser feita por um solista ou pelo coral.
  • É recomendável executar as frases do “Glória”, alternadamente, em dois grupos: por exemplo, coral e povo. Eventualmente, o coral poderá cantar este hino sozinho, em ocasiões festivas.
  • A Liturgia não usa o “Glória” nos tempos litúrgicos do Advento e da Quaresma, certamente pelo fato de um hino festivo não sintonizar com o caráter penitencial (da quaresma) e de discreta sobriedade (do advento). Aqui, talvez, encontramos uma das principais razões para executá-lo sempre cantado. Hinos se cantam, não se falam. Teria sentido, por exemplo, recitar o hino nacional em vez de cantá-lo? Ou se canta, ou então não é hino! O “Glória” não seja substituído por qualquer hino de louvor ou por paráfrases que o reduzem a simples aclamações às três pessoas da Santíssima Trindade.
3.4.8.3. O “Pai-Nosso”

309. Função: A “Oração do Senhor” introduz nossa preparação imediata para a participação no Banquete Pascal.

Forma:
  • Para superar o costume problemático do povo em nossas igrejas, em geral, que reza apressadamente e canta de maneira arrastada, a melhor maneira é a de se cantar o “Pai-Nosso” numa melodia simples, no estilo de cantilena.
  • No 3º fascículo do Hinário Litúrgico encontram-se nove fórmulas para cantar esta oração, entre as quais uma com a antiga melodia gregoriana (p. 28) e duas baseadas na folcmúsica religiosa (pp. 60 e 63).
  • Como é um texto bíblico, na versão do missal, omitam-se as paráfrases ou versões alternativas.
3.4.8.4. O “Cordeiro de Deus”

310. Função: Este canto litânico acompanha o partir do pão, antes de se proceder à sua distribuição. Não deve ser usado como se fosse uma maneira de encerrar o movimento criado na assembléia durante o abraço da paz.

Forma:
  • A invocação e a súplica, eventualmente executadas de modo dialogado por um solista ou coral e a assembléia, podem ser repetidas tantas vezes quantas o exigir a ação que acompanham, terminando sempre com a resposta: “Dai-nos a paz!”.
  • Ao contrário do “Santo” e do “Pai-Nosso”, o “Cordeiro de Deus” não é necessariamente um canto do povo e pode ser cantado apenas pelo coral.
  • Quem inicia esse canto não é quem preside, mas a assembléia (cantor, dirigente).
  • O ritmo e o modo de execução sejam condizentes com o sentido de invocação e súplica, próprio do canto do “Cordeiro de Deus”, que só deve ser executado no momento de partir o pão eucarístico.
3.4.8.5. O “Creio”

311. Função: Por esta “Profissão de Fé” a assembléia responde à Palavra de Deus, proclamada na Liturgia da Palavra, confirmando para si mesma a regra de fé, no momento em que passa a celebrar a Liturgia Eucarística.

Forma:
  • O “Símbolo” da fé é o texto que tem sido menos musicado por nossos compositores, desde a introdução do vernáculo no Brasil.
  • Se for cantado, que seja numa simples cantilena, evitando uma extensa e complicada estrutura musical.
  • Também para o canto do “Creio”, a forma alternada em dois grupos é a mais indicada.
3.4.8.6. A “Oração Universal”

312. Função: Na “Oração Universal”, ou Oração dos Fiéis, exercendo sua função sacerdotal, o povo suplica por toda a humanidade.

Forma:
  • Conhecemos várias. A primeira e mais solene é a da Sexta-feira da Paixão, em que as intenções também são cantadas.
  • A segunda: a assembléia responde às intenções proferidas pelo diácono, o cantor ou algum outro, com uma súplica, preferivelmente cantada, a fim de favorecer a unanimidade.
  • A terceira: todas as intenções são incluídas numa só oração, à qual se responde uma só vez.
  • Uma forma alternativa poderia ser a ladainha.
  • Finalmente, existe ainda a forma de anúncio das intenções seguido de silêncio orante, que poderia ser acompanhado de conveniente fundo musical.
3.4.9. Os cantos processionais

3.4.9.1. O canto de Abertura

313. Função: O Canto de Abertura, inserido nos ritos iniciais, cumpre antes de tudo o papel de criar comunhão. Seu mérito é de convocar a assembléia e, pela fusão das vozes, juntar os corações no encontro com o Ressuscitado, na certeza de que onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles (Mt 18,20). Este canto tem de deixar a assembléia num estado de ânimo apropriado para a escuta da Palavra de Deus. Temos fartos exemplos em que nos espelharmos no Livro dos Salmos: 66(65); 92(91); 95-100(94-99); 113(112); 117(116); 122(121); 134-136(133-135); 146(145)-150.

Forma:
  • A vantagem de o povo responder com um refrão (cantado de cor) a alguns versos, entoados por um cantor ou coral, é a de os fiéis mais livremente poderem olhar para a procissão de entrada dos ministros, às vezes precedidos pelas crianças da primeira eucaristia, pelos jovens a ser crismados, pelo casal de noivos que vai se unir em matrimônio etc.
  • Um canto estrófico sem refrão não seria tão indicado para a procissão de entrada, mas poderia, eventualmente, ser funcional após a procissão, a fim de a comunidade, agora formada, poder firmar-se mais através de um hino cantado por todos.
3.4.9.2. O canto de Comunhão

314. Função: o Canto de Comunhão visa, muito especialmente, a fomentar o sentido de unidade. É canto que expressa o gozo pela unidade do Corpo de Cristo e pela realização do Mistério que está sendo celebrado. Por isso, a maior parte dos hinos eucarísticos utilizados tradicionalmente na Adoração ao Santíssimo Sacramento não é adequada para este momento, pois ressaltam apenas a fé na Presença Real, carecendo das demais dimensões essenciais do Mistério da Fé.

315. O texto não se reduza a expressão excessivamente subjetiva, individualista, intimista e sentimentalista da comunhão. Que ele projete a assembléia como um todo, e cada uma das pessoas que participam, para a constituição do Corpo Místico de Cristo. Em certas oportunidades, favoreça mais ao recolhimento, a fim de evitar um comungar puramente rotineiro e inconsciente. Em outras, sobretudo por ocasião de festas maiores, faça desabrochar a alegria e a exultação, como se diz da experiência eucarística das primeiras Comunidades Cristãs (cf. At 2,46).

316. O fato de a Antífona da Comunhão, em geral, retomar um texto do Evangelho do dia, revela a profunda unidade entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística e evidencia que a participação na Ceia do Senhor, mediante a Comunhão, implica um compromisso de realizar, no dia-a-dia da vida, aquela mesma entrega do Corpo e do Sangue de Cristo, oferecidos uma vez por todas (Hb 7,27).

Forma:
  • A forma que a tradição litúrgica oferece para o Canto de Comunhão, a de um refrão tirado do texto do Evangelho do dia alternado por versos de um salmo apropriado, foi mantida no 3º fascículo do Hinário Litúrgico da CNBB, nos cantos de Comunhão dos Anos A, B e C.
  • Esta forma dialogal ajuda os fiéis a receber o Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo livres da necessidade de carregar livros ou folhas.
  • Também durante a comunhão, a forma de um tropo, não prolongado demais, com um refrão poderia ser funcional. O texto do tropo seria, de preferência, uma citação do Evangelho do dia, atualizando-o no Mistério eucarístico.
  • Não é necessário que esse canto se prolongue, ininterruptamente, durante todo o ato de repartir o Pão do Céu. Em certas oportunidades seria até vantagem interromper os versos por interlúdios instrumentais, tornando o canto menos maçante e favorecendo a interiorização.
  • Em algumas oportunidades, é importante que ele faça transbordar a alegria da Festa, sendo um canto exultante, desfecho vibrante de toda a celebração, cantado com a espontaneidade do sorriso e do aplauso, sem que isso em nada desmereça, pelo contrário, exalte, a presença maior do Senhor, com quem a Assembléia entra em plena comunhão.
  • Outra possibilidade é selecionar refrãos bem conhecidos da assembléia, sobretudo em celebrações de massa, e cantá-los um após outro, com interlúdios instrumentais.
3.4.10. O Salmo Responsorial

317. Função: Para a Liturgia da Palavra ser mais rica e proveitosa, há séculos um salmo tem sido cantado como prolongamento meditativo e orante da Palavra proclamada. Ele reaviva o diálogo da Aliança entre Deus e seu povo, estreita os laços de amor e fidelidade. A tradicional execução do Salmo Responsorial é dialogal: o povo responde com um curto refrão aos versos sálmicos, cantados por um solista. Deve ser cantado ou proclamado do ambão.

Forma:
  • Há duas maneiras de proclamar os versos dos Salmos: por versículos ou por estrofes.
  • No Hinário Litúrgico (fascículos 1, 2 e 3) encontram-se salmos e refrãos próprios para cada domingo do ano litúrgico (anos A, B e C).
  • Outros salmos e refrãos, podem ser usados, mas sempre em forma dialogal e em sintonia com o tempo litúrgico, a festa ou ocasião.
  • Como “parte integrante da Liturgia da Palavra”,  este Salmo é sempre um texto bíblico, comumente extraído do Saltério.
  • O canto do Salmo, ajustado à Leitura que o precede, não pode ser substituído, então, por um canto qualquer sobre a Palavra de Deus, como durante certo tempo se andou fazendo com os chamados “cantos de meditação”, por falta, é claro, de cantos apropriados, o que não é mais o caso após a introdução do Hinário Litúrgico.
  • Para facilitar a acolhida da Palavra de Deus, é recomendável breve período de silêncio entre a leitura e o canto do Salmo Responsorial.
3.4.11. Cantos suplementares

318. Esta categoria inclui cantos para os quais não há textos específicos previstos. A rigor, são elementos facultativos da celebração, e nem precisam ser falados ou cantados.

3.4.11.1. O canto de apresentação das oferendas

319. Função: Este canto, que acompanha o gesto de colocar os bens em comum, para as necessidades da comunidade (Rm 12,1-2; Ef 4,28), juntamente com o pão e o vinho que serão consagrados e partilhados na Ceia do Senhor, serve de introdução (“Ouverture”) à Liturgia Eucarística, à refeição-memorial do Senhor. Não é sempre necessário nem desejável, principalmente quando não há uma procissão mais solene dos dons, embora seja muito apreciado pela nossa prática litúrgica pós-conciliar.

Forma:
  • Conforme mostram as Antífonas, previstas no “Graduale Romanum”, porém não incluídas no “Missal Romano”, o texto deste canto não precisa falar, necessariamente, de pão e de vinho nem de ofertório ou oblação, mas pode expressar o louvor e a referência ao tempo litúrgico.
  • Na tradição do Canto Litúrgico no Brasil, desde a introdução do vernáculo, o “Canto de Apresentação das Oferendas” chegou a tornar-se um momento em que o povo deseja expressar sua disposição de querer oferecer sua vida, sua luta e trabalho ao Senhor, o que parece ter um alto valor existencial e espiritual;
  • Na Introdução do Missal se diz: Este canto é executado alternadamente pela Escola dos Cantores e pelo povo, ou pelo cantor e o povo, ou só pelo povo ou só pela escola.
  • Neste momento, uma música instrumental ou então um canto polifônico do coral seriam, também, adequados, funcionando assim como uma espécie de interlúdio entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística.
  • A forma mais adequada e completa deste rito seria praticada se os seus três momentos fossem observados: a) procissão das oferendas e/ou b) a simples preparação da mesa trazendo pão e vinho, ambos acompanhados de um canto ou solo instrumental; c) apresentação dos dons, acompanhado do canto de quem preside: “Bendito sejais, Senhor Deus do Universo...”, seguido da aclamação da assembléia: “Bendito seja Deus para sempre!”.
3.4.11.2. Após a comunhão

320. Função: A “Didaqué” - documento da segunda metade do primeiro século do cristianismo, que recolhe instruções e práticas das Igrejas de então -, testemunha o uso de uma ação de graças após a comunhão.87 Sobretudo se durante o repartir do Pão Eucarístico houve música instrumental ou canto polifônico do coro, um canto da assembléia em seguida poderia ser expressão apropriada de unidade no Senhor Jesus. Este canto não é necessário, e às vezes nem desejável, quando já houve um Canto de Comunhão, com participação do povo, que se prolongou por algum tempo após a distribuição do alimento eucarístico. Recomenda-se, então, o silêncio sagrado, um momento de interiorização após a movimentação ou exultação que poderá ter caracterizado a procissão de comunhão.

Forma:
  • Dado que não é especificado nenhum texto particular, há campo aberto para a criatividade criteriosa. O mais desejável e proveitoso seria que esse canto fosse uma ressonância da Liturgia da Palavra.
  • Não seria muito lógico cantá-lo após a bênção e despedida, depois que o povo já recebeu o convite para retirar-se, ou seja, para sair em missão.
3.4.11.3. O canto de acolhida do Livro das Sagradas Escrituras

321. Função: Este canto, bastante usado nas comunidades, provoca atitude de alerta e exultação no momento em que o Livro Sagrado é introduzido solenemente na assembléia.

Forma:
  • Em certas oportunidades, refrãos curtos de caráter meditativo, que favoreçam a interiorização e o silêncio necessários para a escuta da Palavra.
  • Em outras oportunidades mais solenes e festivas, refrãos animados, que provoquem a alegria da assembléia ao receber seu tesouro mais precioso, como aconteceu com o Povo de Deus nos tempos de Esdras (Ne 8,5-6.18).
  • Em todo o caso, o canto do “Aleluia”, com seu versículo extraído do Evangelho, seja reservado para o momento de aclamação solene e festiva do Evangelho.
3.4.11.4. O canto da paz

322. Embora seja usado em muitas comunidades do Brasil, o “canto da paz” não está prescrito em nenhum ritual da Igreja. Vale lembrar que o momento do abraço da paz é previsto para as pessoas se cumprimentarem. Portanto, caso se opte por algum canto, o mesmo seja executado pelo coral ou grupo de cantores e nunca substitua ou ofusque o canto que acompanha o rito da fração do pão: o “Cordeiro de Deus”.

3.4.11.5. As intervenções da assembléia durante a Oração Eucarística

323. Função: Durante a Oração Eucarística estão previstas, além das duas aclamações (memorial e doxologia) várias intervenções da assembléia. É o jeito mais significativo de o povo participar do grande louvor, da solene Ação de Graças, da Bênção das Bênçãos.

Forma:
  • Curtas intervenções, feitas para ser cantadas. Podem ser propostas por um solista (nunca por quem preside) e repetidas por toda a assembléia. Há exemplos destas intervenções musicadas no Missal Romano e no Hinário Litúrgico.
3.4.11.6. Canto final ou de despedida

324. Deve haver canto final?... Normalmente, não tem sentido. A reforma conciliar pôs o “Ide em paz” como última fórmula da celebração, e seria ilógico um canto neste momento, pois a assembléia está dispensada. O ideal seria o próprio “Ide em paz”, ou fórmula que lhe corresponda, ser cantado pelo diácono ou cantor e respondido pelo canto da assembléia que se vai. Durante a saída do povo, o mais conveniente seria um acompanhamento de música instrumental. Se em alguma ocasião parecer oportuno um “canto final”, por exemplo o hino do Padroeiro ou Padroeira na sua festa, ou um hino em honra da Mãe do Senhor em alguma de suas comemorações, que ele seja cantado com a presença de todo o mundo, logo após a bênção, antes do “Ide em paz”.

3.4.12. Silêncio

325. Oportunamente, como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado. A sua natureza depende do momento em que ocorre em cada celebração. Assim, no ato penitencial e após o convite à oração, cada fiel se recolhe; após uma leitura ou homilia, meditam brevemente o que ouviram; após a comunhão, enfim, louvam e rezam a Deus no íntimo do coração.

326. A celebração deve comportar uma revalorização do silêncio, dentro de uma liturgia que, no espaço de poucos anos, passou de um acontecimento silencioso a uma vivência por demais sonora, cheia de palavras e música; ainda mais que o povo, às vezes, vem para a celebração depois de ter sido fortemente “bombardeado” por um ambiente musical atordoante, ao longo do dia. Grande é a responsabilidade de encontrar um equilíbrio para esta questão.

3.5. O CANTO NAS CELEBRAÇÕES DOS SACRAMENTOS E SACRAMENTAIS

327. Para a Liturgia dos Sacramentos... preparem-se melodias apropriadas que
permitam dar mais solenidade à celebração. Neste caso, é necessário seguir as diretrizes dadas pela autoridade competente e levar em conta as possibilidades de cada assembléia.

328. As orientações que são dadas para a Eucaristia e as celebrações da Palavra servem também para os demais sacramentos e sacramentais (Ordenações, Consagrações etc). Aqui se privilegiam alguns sacramentos, pela sua importância no conjunto da ação pastoral da Igreja.

3.5.1. Iniciação cristã

329. Cada um dos diversos ritos de iniciação inclui uma liturgia da palavra e com freqüência é seguido pela Eucaristia. Assim, ao preparar os cantos para a celebração, deve-se dar ênfase a cada um destes ritos litúrgicos fundamentais, explorando suas diversas possibilidades cantadas: aclamações, respostas, salmos responsoriais, refrãos e cantos alusivos ao rito, cantos populares etc.

3.5.2. Matrimônio

330. O casamento apresenta desafios e oportunidades particulares. É útil que uma diocese ou uma paróquia tenham uma política definida (porém, flexível) a respeito da música para esse momento. Esta política deve ser comunicada a tempo aos nubentes, como parte normal de sua preparação, a fim de evitar crises e mal-entendidos de última hora. Tanto o músico como o pároco devem fazer todo o esforço para ajudá-los a participar na preparação da liturgia de seu matrimônio e compreendê-la bem. Às vezes, a única música que lhes é familiar é a que foi ouvida na cerimônia do casamento de um amigo e que não é necessariamente adequada para o sacramento. Far-se-á todo o esforço para mostrar-lhes um eque mais amplo de possibilidades, particularmente na escolha da música a ser cantada por toda a assembléia presente na liturgia.

331. No Hinário Litúrgico, 4º fascículo, encontra-se uma seleção de cantos para a celebração do matrimônio. Grande parte deles com arranjo para várias vozes, como sugestão para grupos de cantores ou coros.

332. As decisões particulares quanto à seleção e ao uso litúrgico da música para o casamento devem surgir destas três perguntas:
  • O aspecto litúrgico: o texto, a forma, a colocação e o estilo da melodia estão em sintonia com a natureza da liturgia?
  • O aspecto musical: a música é técnica, estética e expressivamente boa (seja qual for o idioma ou o estilo musical)?
  • O aspecto pastoral: a música ajudará a assembléia a rezar?
333. Semelhante processo de diálogo pode não ser tão fácil de aplicar como uma lista definitiva de músicas proibidas ou permitidas, porém, pastoralmente, terá mais efeito.

334. A questão fundamental da música litúrgica não é só nem principalmente de ordem estética, histórica, técnica, cultural, jurídica, psicológica e sociológica; é questão primeiramente de caráter religioso-litúrgico: isto é, na celebração do culto divino da Igreja, o escopo não é o de “fazer música pela música”, mas de entrar, por meio da arte musical, em comunicação mais profunda com o Mistério da Salvação que se realiza na liturgia. A música para a liturgia tem uma estética especial (funcional-ministerial): uma arte litúrgica a serviço da Palavra de Deus, do rito sagrado e da comunidade, e não um serviço a si mesma, uma demonstração de cultura que desvirtua o mistério divino. Uma obra famosa, uma peça clássica ou de outro estilo, se não se integram na liturgia, podem correr o risco de parecer um corpo estranho dentro da celebração. Princípio e critério fundamental será sempre este: quanto mais uma obra musical se integra na ação litúrgica, nos diversos ritos de uma celebração comunitária concreta, tanto mais é adequada ao uso litúrgico.

335. Desta maneira, o problema do sacro e do profano passa a inexistir: desde que corresponda ao que dela se espera na liturgia, em determinado momento da celebração de uma comunidade, uma determinada música será litúrgica. Portanto, a Igreja aprova e admite ao culto divino qualquer gênero de arte musical que preencha a finalidade de glorificar a Deus na linguagem da assembléia orante.

3.5.3. Exéquias

336. Os funerais têm recebido pouca atenção dos que cuidam do canto litúrgico. São situações-limite, de difícil solução pastoral, envolvendo pessoas, famílias e amigos na dor profunda pela perda de um ente querido; não raro, pessoas sem nenhuma experiência eclesial, sem nenhuma iniciação litúrgica, sem mesmo um mínimo de evangelização.

337. É responsabilidade pastoral das dioceses e paróquias proporcionar música litúrgica para esses momentos. É preciso encontrar jeitos e maneiras de estimular todos aqueles que estão presentes às exéquias, ou à missa pelos defuntos, a participar ativamente da celebração, cantando e orando, de modo que possam fazer rica e consoladora experiência do Cristo Ressuscitado, num momento de dolorosa saudade, que deve converter-se em confortadora esperança. As orientações para a seleção e execução dos cantos, contidas neste documento, valem igualmente para esses momentos.

338. No Hinário Litúrgico, 4º fascículo, encontram-se cantos para a celebração da morte cristã. São subsídios para o rito da encomendação e a missa de 7º dia, principalmente onde não se cantam as tradicionais “incelências” da religiosidade popular.

3.6. O CANTO DA LITURGIA DAS HORAS

339. A celebração cantada do Ofício Divino é a mais em consonância com a natureza desta oração e sinal de maior solenidade e de mais profunda união de corações no louvor do Senhor; conforme o desejo expresso da Constituição sobre a Sagrada Liturgia (23), se recomenda encarecidamente esta forma aos que têm de cumprir o Ofício Divino no coro ou em comum.

340. Certamente não há necessidade de cantar o Ofício por inteiro. Deve haver equilíbrio entre a palavra e o canto. Os espaços silenciosos devem ser respeitados. É importante consultar a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas.94 Uma orientação poderia ser esta:
  • Hino: deve ser cantado. Não tem sentido sua recitação na celebração em comum;
  • Salmos: Devem ser cantados, sobretudo os de louvor, os messiânicos e os grandes salmos de peregrinação que atualizam acontecimentos festivos;
  • Os Cânticos Evangélicos de Zacarias, Maria e Simeão: devem ser cantados. A assembléia, em pé, celebra a novidade do Reino anunciado, manifestado e acolhido no coração e compartilhado com júbilo;
  • O Responsório breve: se for cantado, prolonga a ressonância da mensagem e ajuda a meditação. Não sendo cantado, um silêncio, com ou sem música de fundo, centraliza o gesto coletivo;
  • O Pai-Nosso: é importante que seja cantado;
  • Aconselha-se também a cantar as respostas das preces;
  • Saudações e diálogos: dependem de muitas coisas, tais como a atitude de quem preside, do dia, da hora etc. A música pode estabelecer contato e comunhão.
341. O povo não deve ficar à margem do Ofício Divino. Deve ser convidado e preparado para participar da celebração em comum da Liturgia das Horas, sobretudo aos domingos, especialmente na Oração da Tarde. Para seu maior entendimento e participação, foi publicado o “Ofício Divino das Comunidades”, na tentativa de fazer chegar ao povo as riquezas estruturais da Liturgia das Horas. É uma tentativa de inculturação, não apenas simplificada em versão mais breve, mas transformada num jeito de rezar que sirva melhor às nossas comunidades.95 Embora não sendo igual à Liturgia das Horas, pode levantar o nível da oração do nosso povo em direção da Tradição mais antiga da Igreja.

3.7. HINÁRIO LITÚRGICO

342. Após o Concílio, nos Encontros Nacionais de Música Litúrgica manifestou-se o desejo de resgatar a tradição de cantar “a” liturgia através de uma coletânea de cantos litúrgicos em língua vernácula e com melodias próprias do país. Após muitos anos de experiência e rica produção de música litúrgica, surgiu o Hinário Litúrgico da CNBB em quatro fascículos:
  1. fascículo: Advento e Natal;
  2. fascículo: Quaresma, Páscoa e Pentecostes;
  3. fascículo: Tempo Comum;
  4. fascículo: Sacramentos, Comum dos Santos e Missas para diversas necessidades.
Cada volume traz melodias também para as partes fixas da celebração (o comum ou ordinário).

343. Em cada volume encontra-se rica introdução sobre o tempo litúrgico em questão, como também preciosas orientações musicais para musicistas e cantores. Na contracapa do 2º fascículo encontram-se alguns critérios para as composições de texto e melodia, frutos do Encontro Nacional de Música Litúrgica de 1984.

344. Pode-se dizer que o Hinário Litúrgico é o livro de canto para as nossas comunidades cantarem “a” liturgia como também é a fonte e a inspiração para qualquer outro canto litúrgico. Porém, ele não quer inibir a criatividade das mesmas comunidades na seleção e na composição dos cantos, desde que estejam de acordo com os critérios litúrgicos.

3.8. O CANTO GREGORIANO AINDA FAZ SENTIDO?

345. Com a introdução da língua vernácula, o repertório tradicional de música litúrgica (canto gregoriano e polifonia sacra) desapareceu quase por completo de nossas ssembléias – com exceção de algumas Igrejas e/ou mosteiros que ainda os cultivam. Nos últimos anos, a divulgação mundial do canto gregoriano fez com que este “tesouro musical” da Igreja fosse redescoberto e valorizado. Encontram-se hoje produções musicais que caracterizam o canto gregoriano como “música que faz reencontrar a paz interior, raças à sua pureza e serenidade”. Em vários países há experiências de cantar cantos gregorianos, em vernáculo, com melodias compostas em estilo e tons modais próprios.

346. Em algumas comunidades, cantos gregorianos simples (silábicos) poderiam ser executados pela assembléia, tais como: Kyrie, Sanctus, Veni Sancte Spiritus, Victimae Paschali Laudes etc. Naturalmente, cantos difíceis, mais elaborados (melismáticos), poderiam ser executados apenas pela “Schola Cantorum”, ou por um solista, em momentos de interiorização e de escuta. Vale lembrar que a Abadia Beneditina de Solesmes, na França, publicou o “Graduale Simplex”, com melodias em estilo silábico para uso da assembléia.

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