A formação do músico católico é fundamental e a pedra principal é sua obediência e concordância litúrgica.
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terça-feira, 31 de março de 2015

RUMO A SEMANA SANTA

Conduzidos pelo Evangelho de Marcos, entramos na Semana Santa através das celebrações do Domingo de Ramos e da Paixão. Simbolicamente, somos levados a Jerusalém, centro religioso e político da Palestina. Vamos com Jesus reviver a fase conclusiva de sua atividade terrena.
Desta vez, o peregrino entra na cidade de Davi de modo diferente. Não a pé, mas montado no jumentinho. Portanto, o gesto é profético e messiânico. Atualiza o anúncio feito pelo profeta Zacarias: “Exulta muito, filha de Sião, solta gritos de alegria, filha de Jerusalém! Eis que teu rei vem a ti: Ele é justo e vitorioso; é humilde e cavalga um jumento, um jumentinho, filho de jumenta” (Zc 9,9).
Realiza-se a profecia, não só pela maneira que Jesus entra na capital, mas pela recepção alegre das pessoas, festiva e calorosa. Haja vista os detalhes: “Muitos estenderam suas vestes pelo caminho, outros puseram ramos que haviam apanhado nos campos” (Mc 11, 8). Os presentes O recepcionam. “Os que iam à frente d’Ele e os que O seguiam clamavam: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino que vem, do nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus!” (Mc 11, 9-10). Entrou no Templo, e observou tudo (Mc 11, 11). É o olhar de quem purificará o culto, motivo a mais para matá-Lo, logo que for possível (Mc 11, 15-19).
O Evangelho de Marcos chama a atenção pela brevidade e a concisão. A Paixão, porém, é extensa e detalhada. Mais ainda, o desenvolvimento da narrativa introduz ou prepara o leitor para o drama doloroso do fim. De fato, há acusações e controvérsias na Galileia, o tríplice anúncio da Paixão, o confronto em Jerusalém, as ameaças das lideranças durante a última semana; enfim, a conspiração dos chefes dos sacerdotes e dos escribas. O evangelista é explícito: “procuravam como prender Jesus por meio de um ardil para matá-lo” (Mc 14, 1).
Jesus avança rumo à Paixão acompanhado de seus discípulos. Nós vamos com Ele. Eis o sentido litúrgico das celebrações. Entretanto, aos poucos o Mestre se encontra abandonado e só. Pendente da Cruz, encontra-se circundado apenas pelos adversários que O insultam. Todos os discípulos fogem. Pedro, que tenta segui-Lo de longe, renega-o. Quantos se afastaram!
Houve um pequeno resto que permaneceu. Será sempre assim. “Estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, mãe de Tiago, o Menor, e de Josef, e Salomé. Elas O seguiam e serviam enquanto esteve na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém” (Mc 15, 40-41). Elas estiveram presentes também no sepultamento. “Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele fora posto” (Mc 15, 46-47). Dentro do possível, elas foram solidárias. Sempre elas, as santas mulheres.
A solidão de Jesus é realçada pelo salmo, recitado na Cruz: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonastes?” (Mt 15, 34; cf Sal 22[21],2). Os gritos de Cristo correspondem à mesma súplica do justo sofredor que salmodia: “Meu Deus, eu grito de dia, e não me respondes, de noite, e nunca tenho descanso” (v.3). O evangelista apresenta Jesus em oração solitária e sofrida. Prece motivada pela esperança, conforme a sequência do salmo: “ouviu-o, quando ele gritou” (v. 25). Assim parece nos dizer o evangelista, tanto que acrescenta: “dando um grande grito, expirou” (Mc 15, 37). Gritar é sua última oração sem palavras. Aparentemente, sem consolo.
Gerações de cristãos vivenciaram Jesus abandonado quando foram incompreendidos, magoados, desprezados, marginalizados, caluniados, acusados, perseguidos, torturados, martirizados. Outros ouviram os gemidos dos empobrecidos, doentes, famintos, exilados, injustiçados e não os deixaram no abandono, sem resposta, sem socorro e sem amor.

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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